Imigração para a Europa muda, mas não para, segundo a Frontex

Varsóvia, 20 Jun 2017 (AFP) - A onda de migrantes que procuram chegar à Europa mudou de rota, uma vez que o caminho através da Grécia, passando pela Turquia, está quase fechado, mas grupos cada vez mais numerosos, arriscam suas vidas cruzando o Mediterrâneo em sua tentativa de chegar à Itália a partir da costa da Líbia.

Esta tendência fez prosperar redes criminosas, forçando a Europa a reforçar a sua agência responsável por vigiar as fronteiras, a Frontex.

Este organismo desempenha o papel de polícia, boa e má, resgatando por um lado os náufragos, mas levando-os para abrigos onde correm o risco de ser devolvidos aos seus países.

O diretor da Frontex, Fabrice Leggeri, resumiu a situação em uma entrevista à AFP.

- Quem são os migrantes?Na costa grega, entre "80 e 100 pessoas chegam a cada dia, enquanto esse número chegou a alcançar 2.500 por dia" antes do acordo firmado com a Turquia em março 2016, indica o diretor da agência.

Mas, por outro lado, o número de pessoas que chegam à Europa procedentes da África pelo Mediterrâneo central e pela Líbia, sofreu um aumento de mais de 40%. A maioria deles vêm de países da África Ocidental, como Senegal, Guiné e Nigéria.

Ao longo de 2016, este número totalizou 180.000. A maioria são pessoas que emigram por motivos econômicos, que são transportadas por traficantes de seres humanos. Entre elas há muitos jovens, mas também famílias e mulheres.

Muitas nigerianas são exploradas sexualmente na Europa. No entanto, "não são os mais pobres que deixam o seu país, porque devem pagar os contrabandistas", aponta Leggeri.

Segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), mais de um milhão de pessoas chegaram na UE em 2015, das quais 850.000 entraram pela costa grega. A maioria veio da Síria (56%), Afeganistão (24%) e Iraque (10%).

Após a conclusão em março do ano seguinte de um acordo com Ancara, o total de chegadas por mar caiu para cerca de 363.000 em 2016, de acordo com a OIM.

"Cerca de 36.000 migrantes chegaram na Itália desde o início do ano, ou seja, um aumento de 43% em relação ao mesmo período do ano passado", segundo dados da Frontex, que compila dados até meados de abril.

- Quem são os traficantes? - No início da parte perigosa da viagem, no deserto do Saara, os migrantes são transportados por tuaregues ou tubus.

"Essas tribos, muitas vezes nômades (...) estavam acostumadas a atravessar turistas e agora fazem o transporte de migrantes", e não necessariamente "têm consciência de que fazem algo criminoso", afirma Leggeri.

Em contrapartida, para atravessar o Mediterrâneo, atuam redes criminosas, grandes e pequenas.

Na parte inferior da escala do sistema estão os pequenos intermediários, por vezes, os próprios migrantes, que para pagar a sua viagem assumem o comando das precárias embarcações, sobrecarregadas de passageiros, explica o funcionário.

Depois, há os encarregados de arrecadar o dinheiro e organizar a viagem, mas que não participam na viagem e, logo acima, os chefes que gerenciam as redes, entre os quais há perfis de pessoas que "provavelmente passaram pela polícia" líbia, revela.

- Quanto dinheiro arrecadam ? -Não é fácil estimar números concretos, mas de acordo com um recente relatório da Europol, estas redes teriam recebido entre 4,7 e 5,7 bilhões de euros em 2015 (este número caiu para cerca de 2 bilhões de euros em 2016).

Com esses ganhos, os grandes traficantes muitas vezes lançam-se em outras atividades criminosas para às quais necessitam de capital inicial, "seja tráfico de drogas e de armas, e até mesmo, algo que não se pode excluir, o financiamento do terrorismo", acrescenta o diretor da Frontex.

- Por onde passam os migrantes? - Aqueles que chegam da África Ocidental começam sua viagem de ônibus, segundo Fabrice Leggeri. O território da Comunidade Econômica dos Estados do Oeste Africano (CEDEAO) é semelhante ao Espaço Schengen europeu, e pela região se viaja livremente por uma pequena soma de cerca de 20 euros.

Uma vez em Niamey, capital do Níger, entra-se no terreno de ilegalidade, uma vez que deve-se desembolsar até 150 euros para chegar à fronteira com a Líbia.

Em seguida, vem a travessia, para a qual o preço pode chegar até mil euros, dependendo do barco, mas também é possível encontrar barcos infláveis onde se viaja em condições de insegurança total por cerca de 300 euros.

A rota do Leste Africano, a partir do Chifre da África, é utilizada por eritreus, somalis e etíopes.

É a mais cara, de acordo com Leggeri.

Esta viagem é organizada por grupos criminosos de cada nação que cooperam entre si. Desta forma, uma rede sudanesa entrega seus clientes aos traficantes líbios na fronteira, por exemplo.

"Lá, a taxa para ir do Chifre da África para a Itália pode subir para 3.000 euros", estima.

- O que a UE tem feito? - Em 2015, a crise migratória que atingiu a Grécia marcou um antes e um depois. A Europa deu mais poderes e mais recursos para a Frontex.

"No início de 2015, éramos capazes de mobilizar entre 300 e 350 guardas de fronteira", lembra Fabrice Leggeri.

Atualmente, "somos capazes de ter 1.300 ou 1.400 guardas mobilizados simultaneamente em vários locais de operações".

Em 2016, a Europa criou um grupo de reação rápida: com o qual 1.500 guardas de fronteira podem ser mobilizados dentro de cinco dias úteis, se necessário.

Ao mesmo tempo, a Frontex trabalha para parar os fluxos migratórios antes que cheguem ao Mediterrâneo. A agência abriu um escritório em Niamey para reforçar a sua cooperação com o Níger.

Paradoxalmente, os salvamentos encorajam a migração e beneficiam os traficantes que lançam as pessoas em pequenos barcos inaptos, assumindo o risco de que se caíram no mar serão assistidos.

"Em 2016, reconheceu Leggeri, nunca tivemos tantos navios patrulhando o Mediterrâneo (...) e, infelizmente, nunca houve tandos mortos, 4.000 vítimas contabilizadas com certeza pela OIM".

Há uma mensagem a transmitir, que é a de que o paraíso que desejam alcançar "é uma mentira".

"Ou se morre no Mediterrâneo, ou se chega à Europa em condições extremamente deploráveis. O que não é descrito pelos traficantes. E, além disso, na medida em que a UE reforça sua política de retorno, o que poderia acontecer é os migrantes perderem as suas economias para pagar traficantes e no final da viagem serem embarcados em aviões para levá-los de volta para seus países de origem ".

- A crise vai acabar ? - A pressão migratória nas fronteiras da Europa não é passageira. As guerras e a instabilidade na Síria, Iraque, Líbia ou no Sahel, impulsionam para a Europa requerentes de asilo autênticos. O mesmo vale para as indignantes disparidades econômicas, a pobreza e a demografia galopante.

Se os países de origem não forem capazes de oferecer aos seus cidadãos um nível de vida e perspectivas adequadas, "como sempre aconteceu na história, os homens e as mulheres vão continuar a viajar", conclui Leggeri.

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