Passados 10 anos da crise dos 'subprime', a esperança volta à cidade vizinha de NY

Newburgh, Estados Unidos, 21 Jun 2017 (AFP) - As casas com as portas e janelas fechadas se estendem por quarteirões, testemunhando a crise "subprime" que atingiu fortemente essa pequena cidade a menos de duas horas de Nova York. Dez anos depois, Newburgh se recupera e vislumbra uma saída.

A cidade de 30.000 habitantes no vale de Hudson, antes próspera, estava em pleno boom imobiliário quando o mercado colapsou em 2007 e 2008, depois de anos de imensos empréstimos hipotecários indiscriminados e preços em alta em todo o país.

A taxa de juros e os impostos locais subiram, e os preços das propriedades despencaram. Incapazes de arcar com os custos, muitos abandonaram suas casas de um dia para o outro, sem aviso.

"Antes da grande recessão, a maioria dessas casas estava habitada", lembra Stuart, um artista chegado do Brooklyn que comprou uma moradia nessa rua próxima à avenida principal de Newburgh há 14 anos.

"Todas, até a esquina, foram embargadas. É realmente terrível", disse apontado para uma dezena de casas.

Um pouco mais longe, Marcus Fryar lembra de famílias inteiras que partiram, deixando um vazio.

Ainda hoje, uma década depois do início da crise, mais de 700 casas - cerca de 10% do total de Newburgh - estão vazias.

Risco de incêndio, criminalidade alta, acentuação da queda dos preços imobiliários: os danos colaterais são variados.

O grupo conta ainda com cerca de 200 "zumbis", casas que a prefeitura não conseguiu sequer identificar o proprietário.

Na maioria das vezes, os bancos iniciam o procedimento para recuperar a casa, mas logo se dão conta de que não recuperarão o dinheiro com a venda do bem, e não concluem o trâmite, explica Helene Caloir, diretora do fundo de estabilização de moradia do estado de Nova York.

Este fundo, que depende da ONG local Initiatives Support Corporation, financia iniciativas locais para sair do impasse.

O dinheiro vem essencialmente dos próprios bancos, que concluíram com o procurador de Nova York acordos amistosos para não ter que responder à justiça por práticas que causaram ou agravaram a crise "subprime".

- Zumbis -A prefeitura de Newburgh, que possui atualmente cerca de 150 propriedades, se associou com o Land Bank, uma entidade local independente, mas subsidiada, que tem cerca de 80. Juntas, tentam voltar a injetar vida nas ruas abandonadas, colocando as casas outra vez no mercado.

O Land Bank já vendeu 60 das 80 casas que tinha em seu portfólio, depois de uma análise aprofundada dos compradores e de sua capacidade financeira, explica Madeline Fletcher, diretora-executiva.

Várias foram adquiridas por particulares que querem viver nelas e o restante por investidores, organizações sem fins lucrativos e empresas privadas.

Em 80% dos casos, o investidor se compromete a cobrar aluguéis moderados, em troca de um preço de compra mais baixo.

"Nosso papel é também garantir que as pessoas daqui terão a oportunidade de melhorar sua qualidade de vida", explica Fletcher.

Os "hipsters" já começam a aparecer nessa cidade duramente afetada pela desindustrialização dos anos 60, mas ao mesmo tempo com significativo capital arquitetônico.

"Todos os finais de semana vemos gente do Brooklyn que não acredita que pode comprar uma casa na cidade por 40.000 dólares", explica Jackson, co-proprietário do café 2 Alices, aberto há três anos. O preço médio de uma casa no Brooklyn é de quase um milhão de dólares.

Fletcher gostaria de evitar que se reproduza a gentrificação selvagem que transformou o Brooklyn. As casas de tijolo lembram o bairro da moda em Nova York.

"Pela primeira vez desde que me tornei bombeiro em 1981 tenho a impressão de que as coisas avançam no bom sentido", diz William Horton, que já apagou vários incêndios nessas casas abandonadas.

Resta encontrar os proprietários desses "zumbis" que prejudicam a vida de Newburgh.

A prefeitura criou um posto de investigação para encontrar os proprietários com a ajuda da internet ou seguindo as pistas judiciais ou através do nome de um advogado que possa fornecer informação, explica Alexandra Church.

"Para matar os zumbis, é como na (série) 'The Walking Dead'", brinca. "É preciso tentar com tudo o que se tem".

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