Temer reage a denúncia de corrupção da PGR, chamando-a de 'uma ficção'

Brasília, 27 Jun 2017 (AFP) - Em pronunciamento no Palácio do Planalto, o presidente Michel Temer disse nesta terça-feira que a denúncia de corrupção passiva, feita contra ele na véspera pelo Procurador-geral da República, Rodrigo Janot, "é uma ficção" e uma "infâmia de natureza política".

A Procuradoria-geral da República (PGR) denunciou Temer por crime de corrupção passiva por ter recebido, por intermédio do ex-deputado e assessor Rodrigo Santos da Rocha Loures, propina no valor de R$ 500 mil de Joesley Batista, um dos donos da gigante da proteína animal JBS.

A denúncia fez dele o primeiro presidente da história do Brasil a ser denunciado ao Supremo Tribunal Federal (STF), em um processo que pode lhe custar o cargo.

"Onde estão as provas concretas de recebimento destes valores? Inexistem. Examinando a denúncia, percebo que reinventaram o Código Penal e incluíram uma nova categoria: a denúncia por ilação", reagiu o presidente em seu pronunciamento.

Temer afirmou, ainda, que as motivações da denúncia de Janot são políticas.

"Não permitirei que me acusem de crimes que não cometi. Quero continuar a trabalhar pelo Brasil, pela geração de empregos. Não fugirei das batalhas nem da guerra que temos pela frente. Minha motivação não diminuirá com os ataques. Não me falta coragem para seguir na reconstrução do país e conhecimento na defesa da minha honra pessoal", declarou, rodeado de deputados e políticos aliados.

O presidente de 77 anos atacou o procurador-geral e afirmou que está tranquilo porque a ação é frágil e visa a prejudicar seu governo, que, entre outras medidas, impulsiona uma controversa reforma da Previdência.

"No foco jurídico, minha preocupação é mínima", declarou.

Caminho tortuosoDois terços dos deputados (342 dos 513) devem validar a denúncia pela pela PGR para que o Supremo Tribunal Federal (STF) possa julgá-la, algo que agora parece improvável devido à imensa maioria que o governo tem, além das dezenas de deputados citados ou investigados em casos de corrupção.

O presidente conseguiu manter até agora do seu lado seu principal aliado, o PSDB, mesmo após o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) declarar na segunda-feira que Temer realizaria um ato de grandeza se renunciasse e convocasse eleições antecipadas.

Se o caso for para o STF, Temer será suspenso do cargo por até 180 dias à espera da sentença dos juízes supremos. Se for declarado culpado, o Congresso deverá eleger um novo presidente no prazo de 30 dias para completar o mandato até o final de 2018.

Reformas"Era uma denúncia esperada. Outras provavelmente virão. É grave para o presidente e para a política do pais, mas não muda o cenário de que Temer, ainda debilitado, possa obter na Câmara o número de votos suficientes para bloquear", observou o analista Ricardo Ribeiro, da MCM Consultores.

Uma impressão reforçada pela estabilidade dos mercados. A A Bolsa de São Paulo subia 0,33% no início da sessão e o real perdia 0,6% frente ao dólar.

Os empresários e o mundo financeiro apostaram fortemente em Temer para realizar as reformas necessárias para devolver a confiança aos investidores a fim de tirar a economia da pior recessão de sua história.

"A denúncia torna improvável a aprovação da reforma previdenciária, a mais importante. Porém, o enfraquecimento de Temer torna improvável a aprovação da reforma da previdência, a mais importante. É um impasse: Temer não sai, mas não consegue aprovar a reforma", prognosticou Ribeiro.

A reforma que busca endurecer as condições de aposentadoria requer uma emenda constitucional e precisa do voto de três quintos dos legisladores das duas câmaras. Mais provável, em compensação, parece a aprovação do regime trabalhista, pois está avançada e só precisa de uma maioria simples, indicou Ribero.

O que talvez esteja mais desgastado é a paciência dos brasileiros ante uma crise sem fim caracterizada pelo desemprego de 14 milhões de pessoas (13,6%).

Várias centrais sindicais convocara greves e mobilizações para os próximos dias para denunciar os projetos de reforma em andamento.

"Vivemos uma crise de representatividade no momento. Os partidos políticos se afastaram das bases populares, dos anseios da sociedade e estão distante da realidade, das demandas sociais do Brasil. É um cenário árido sobre quais são os possíveis representantes que poderão vir a ocupar a presidência em 2018", afirmou à AFP Nicolas Crapez, funcionário público carioca de 34 anos.

Mais denúnciasO Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, tem prazo até a última hora desta terça-feira para apresentar mais denúncias no âmbito das investigações por corrupção, organização criminosa e obstrução da Justiça contra o presidente.

Pouco antes de Janot, a Polícia Federal (PF) entregou um relatório que aponta Temer como suspeito de obstrução da Justiça no âmbito de um provável esquema de formação de quadrilha.

Temer está na corda bamba desde que o jornal O Globo revelou, no dia 17 de maio, uma comprometedora gravação de uma conversa com o empresário Joesley Batista em que o presidente parece dar seu aval à compra do silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha.

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