Oposição volta a marchar contra Maduro, após três meses de protestos

Caracas, 1 Jul 2017 (AFP) - A oposição retoma as ruas, neste sábado (1º), no momento em que se completa três meses de seus maiores protestos contra o presidente Nicolás Maduro, em uma Venezuela sem perspectiva de arrefecimento da crise nacional no horizonte próximo - segundo analistas.

A Procuradoria da Venezuela confirmou a morte de quatro pessoas durante manifestações na sexta-feira na cidade de Barquisimeto, no noroeste do país, aumentando para 89 o número total de falecidos em três meses de protestos.

Mais de mil manifestantes caminharam neste sábado até a principal autoestrada de Caracas para expressar seu apoio à procuradora-geral da Venezuela, Luisa Ortega. Em meio aos protestos, essa chavista histórica se transformou em ferrenha adversária de Maduro.

Na próxima terça-feira (4), a procuradora-geral deve comparecer ao Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), que avaliará se ela será processada. Uma decisão nesse sentido pode levar à sua destituição do cargo. Luisa já está proibida de deixar o país e teve seus bens e contas congelados.

"Todos às ruas para advertir e fazer desconhecer essa manobra", declarou no Twitter o vice-presidente do Parlamento, deputado Freddy Guevara.

Luisa Ortega agradeceu o apoio: "A confiança de vocês fortalece nossa luta institucional. A defesa da Constituição é tarefa de todos", escreveu no Twitter.

Nos últimos três meses "o mais importante que conseguimos foi criar consciência de que a luta para restituir a democracia é dever de cada um", disse à AFP a médica Patricia Valenzuela, 43 anos, que participou da passeata.

A procuradora-geral se afastou do governo, denunciando uma ruptura da ordem constitucional por decisões do TSJ que reduziram os poderes do Legislativo.

Ela também travou uma batalha judicial contra os magistrados da corte e contra a Assembleia Constituinte promovida por Maduro para reformar a Carta Magna. Todos os seus recursos foram indeferidos pela corte.

À petição do chavismo, o alto tribunal avalia levá-la a julgamento, a proibiu de sair do país e congelou suas contas e bens.

O governo assegura que Ortega mentiu ao afirmar que não validou a eleição dos magistrados do TSJ, em 2015, por parte da anterior maioria chavista.

- Escalada do conflitoAs manifestações, que também rejeitam a Constituinte de Maduro por considerá-la uma "fraude" para perpetuá-lo no poder, aconteceram quase todos os dias desde o início de abril, levando, com frequência, a confrontos violentos e a saques.

Entre 1º de abril e 19 de junho de 2017, foram registrados 2.675 protestos, de acordo com o Observatório Venezuelano de Conflitividade Social (OVCS), em um contexto de grave crise econômica.

Na sexta-feira (30), em Barquisimeto (350 km ao oeste de Caracas), homens encapuzados atiraram contra manifestantes que haviam erguido barricadas. O ataque deixou quatro mortos.

Os três meses de protestos também deixaram mais de mil feridos, segundo o Ministério Público, e mais de 3.500 detidos, de acordo com a ONG Foro Penal.

Governo e oposição se acusam mutuamente de causar a violência. Maduro assegura que tudo faz parte de um complô entre "a direita terrorista" e os Estados Unidos para derrubá-lo.

"A Procuradoria também é cúmplice da violência criminosa", denunciou Maduro na sexta à noite.

Na terça-feira (27), ele já havia denunciado uma tentativa de golpe de setores "extremistas da oposição".

O presidente alega que, nesse dia, o policial Óscar Pérez lançou quatro granadas contra o TSJ, de um helicóptero "sequestrado por ele", e atirou contra o Ministério do Interior. O episódio não deixou feridos, e o policial continua foragido.

O analista Mariano De Alba considera que o conflito vai se intensificar.

"O governo insiste em sua proposta de Constituinte, o que, caso se concretize, contribuirá para a escalada do conflito. Governo e oposição ainda pensam que podem se impor um ao outro", disse à AFP.

- Contra o totalitarismoA coalizão Mesa da Unidade Democrática (MUD) anunciou que, na segunda-feira (3), assinará um acordo com setores do chavismo críticos ao governo para rejeitar a Constituinte.

"Vamos assinar um grande acordo contra a imposição do totalitarismo do regime e para trabalhar para a restituição do marco constitucional", declarou a dirigente María Corina Machado.

Já Gonzalo Gómez, líder da Maré Socialista, importante organização chavista contrária a Maduro, garantiu à AFP que eles ainda não foram contatados.

"Se chegarem a entrar em contato, a gente avalia. Entendemos a necessidade de defender as liberdades democráticas", comentou.

O cientista político Ricardo Sucre também prevê uma escalada da tensão, com a proximidade da votação da Constituinte, em 30 de julho.

"É muito alta a possibilidade de que atos inesperados de violência ocorram", disse à AFP.

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