Desiludidos, chavistas participam do plebiscito contra Maduro

Caracas, 17 Jul 2017 (AFP) - O estômago vazio os afastou do chavismo. Seguidores do falecido presidente Hugo Chávez aderiram, neste domingo (16), ao plebiscito da oposição contra Nicolás Maduro, porque - garantem - estão passando fome e querem outro governo.

No bairro carente de Catia, bastião do governo no oeste de Caracas, centenas de pessoas aguentaram por três horas debaixo de um sol forte para rejeitar a Assembleia Constituinte de Maduro.

Uma mulher foi morta hoje, durante a realização do plebiscito, em um tiroteio justamente nesse bairro.

"Preciso sair desse governo. Eu os apoiei, trabalho em uma empresa do Estado, mas, agorinha na minha casa, não tenho leite para minha filha. A cada dia comemos menos. Consigo comprar carne apenas uma vez por semana", disse Mayra à AFP, que, depois de votar, ficou na principal avenida de Catia protestando junto com uma multidão.

"Catia, presente, não quero Constituinte", gritavam os manifestantes, que jogavam água no rosto para aliviar o calor.

Uma barreira de militares os separava de centenas de governistas que participavam, a poucos metros, de uma simulação eleitoral para a Constituinte organizada pelas autoridades.

"Eles também têm direito, mas que não comecem com a violência", declarou à AFP María Portillo, uma dona de casa de 61 anos, que participou do treino do Conselho Nacional Eleitoral (CNE).

- 'Ontem à noite não jantei' -Frankelvin, um estudante de Direito de 19 anos, andava pela fila de eleitores com uma bandeira da Venezuela usada como uma capa. Sorria surpreso.

"Nunca vi tanta gente nas ruas de Catia. Aqui, a oposição não podia fazer nada. E não nos dá medo que eles (os chavistas) estejam aqui. Mais medo de quê? Toda hora roubam a gente. Eu já fui roubado três vezes este mês", contou à AFP.

Cada vez que um caminhão da militarizada Guarda Nacional, ou da Polícia passava pela área, seus agentes eram insultados pelos opositores.

Na Candelaria (centro da cidade), outro antigo reduto chavista, a fila de opositores tinha várias maçãs.

"Estou aqui porque ontem à noite não jantei. Eu apenas almoço, o dinheiro não dá. E sou chavista, sou lixeiro na Marinha e pouco me importa se me demitirem. Maduro tem que sair", disse à AFP Inocente Vivas, de 63.

Depois de votar, em referência a Chávez, Francelis Peche diz que "foi um bom governo, mas agora todos estamos passando fome, muita gente come do lixo".

Apenas alguns chavistas reconhecidos, agora dissidentes, participaram do plebiscito. Entre eles, o deputado Germán Ferrer, marido da procuradora-geral Luisa Ortega, chavista histórica que rompeu com Maduro. Ela mesma não votou.

"A demonstração que estamos vendo é contundente. O povo tem uma necessidade de mudança. O presidente deveria levar isso em conta. Seguir com a Constituinte seria desastroso. Vai aprofundar os problemas", disse Ferrer aos jornalistas.

Seu companheiro de bancada, Eustoquio Contreras, também votou, contou Ferrer.

Ferrer esclareceu que apoiou apenas uma das três perguntas - a que rejeita a Constituinte. Deixou em branco a que pede à Força Armada que respeite a Constituição, assim como a que sugere ao Parlamento, dominado pela oposição, que renove os poderes do Estado.

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