Venezuelana morre em tiroteio contra eleitores durante plebiscito contra Maduro

Caracas, 16 Jul 2017 (AFP) - Uma mulher morreu, e outras três pessoas ficaram feridas, neste domingo (16), quando homens de motocicletas atiraram em opositores que votavam no oeste de Caracas, em um plebiscito simbólico contra a Assembleia Constituinte do presidente Nicolás Maduro - informou o Ministério Público.

O ataque, que terminou na morte de Xiomara Soledad Scott, de 61 anos, aconteceu em um centro de votação no popular bairro de Catia. A multidão que fazia fila para votar fugiu, em meio a gritos de pânico e ao tiroteio, buscando abrigo em uma igreja próxima.

"Não tinha acontecido nada sério, nada grave, nenhuma tragédia a lamentar, mas Maduro e seu regime viram uma participação em massa no plebiscito e se apavoraram", declarou a ex-deputada da oposição María Corina Machado, em entrevista coletiva da Mesa da Unidade Democrática (MUD), ao responsabilizar grupos ligados ao governo.

As seções de votação foram fechando de modo gradual na Venezuela e nos cerca de 500 postos instalados no exterior, como nas cidades de Miami e Madri. Apesar de marcado para as 17h locais, o encerramento da jornada se estendeu, já que, em muitos lugares, a fila era enorme.

Pedindo paciência, a MUD informou que, em alguns centros, chegou a faltar material eleitoral diante do grande fluxo de pessoas. Os resultados serão divulgados agora à noite.

"Não conseguimos remédios. Cada vez dá para menos comida em casa (...). Votamos para tirar eles", disse à AFP Tibisay Méndez, de 49 anos, no sudeste da capital.

Sem o aval do Poder Eleitoral, o plebiscito não é vinculante, mas a oposição acredita que o resultado tornará mais visível a rejeição à Assembleia Constituinte para pressionar o governo a suspendê-la. Segundo o instituto de pesquisa Datanálisis, pelo menos 70% dos venezuelanos seriam contrários à proposta de Maduro.

- 'Não fiquem loucos' -"E já caiu, e já caiu!", cantavam alguns opositores em Caracas, agitando bandeiras venezuelanas, em meio ao buzinaço.

Nesse clima, o presidente Nicolás Maduro pediu aos adversários políticos que "não fiquem loucos" depois do plebiscito e que as divergências sejam resolvidas "em paz".

Em contato por telefone com o comando de campanha para a Constituinte, Maduro enviou uma mensagem à oposição: "Eu lhes digo, não fiquem loucos (...). Eu lhes faço um apelo para que voltem à paz, à Constituição, para que se sentem para falar".

"Felicito o povo. Devemos ter consciência de que as diferenças que temos no país devem ser resolvidas na paz, com votos, e não com balas", insistiu, pedindo uma "chance" para sua iniciativa.

Seus seguidores participaram em massa hoje de uma simulação organizada pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE) para a eleição, em 30 de julho, de 545 constituintes.

"Hoje, estamos demonstrando uma pequena parte. Em 30 de julho, vamos atrás de uma grande vitória. Não vão conseguir parar a Constituinte", disse María Trejos à AFP, em um parque do oeste de Caracas.

O analista Luis Vicente León avalia que, para tirar Maduro, a oposição tem o desafio de mobilizar - em uma "luta pacífica" - aqueles que votaram no plebiscito. Segundo ele, o desafio do governo é conseguir legitimidade para uma Constituinte que enfrenta forte rejeição.

O projeto de Maduro dividiu o chavismo, com a procuradora-geral Luisa Ortega à frente dessa corrente. Ela não votou na consulta de hoje, mas seu marido e deputado chavista chavista Germán Ferrer, sim. Outros dissidentes também foram às urnas neste domingo prestigiar o ato da oposição.

Ortega se aproximou para cumprimentar um grupo de pessoas que votavam em frente à Procuradoria.

Em prisão domiciliar desde 8 de julho, o líder opositor venezuelano Leopoldo López votou em casa.

- 'Hora zero' -Com o apoio dos Poderes Eleitoral, Judiciário e Militar, Maduro dá como certo que terá, a partir de agosto, uma Assembleia Constituinte que regerá o país como um "suprapoder" por tempo indeterminado.

Nesse contexto, a MUD também perguntou aos venezuelanos se apoiam eleições e a renovação dos poderes públicos, e se querem exigir da Força Armada - principal base de sustentação de Maduro - que respeite a Carta Magna atual.

Ao votar na simulação de Constituinte, o ministro venezuelano da Defesa, general Vladimir Padrino López, convocou "o povo a participar da Constituinte".

A presidente do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), Tibisay Lucena, pediu à MUD que não crie "falsas expectativas" com uma "atividade política que não tem nenhuma consequência jurídica".

O presidente do Parlamento, Julio Borges, garantiu, contudo, que o dia de hoje "marcará um antes e um depois" no país.

A oposição afirma que, depois do plebiscito, será ativada a "hora zero": a fase decisiva dos protestos, durante a qual não se descarta uma greve geral.

A consulta simbólica recebeu o apoio de associações civis, da Igreja Católica, da ONU, da Organização dos Estados Americanos (OEA), dos Estados Unidos e de vários governos de América Latina e Europa.

Os ex-presidentes Vicente Fox (México), Andrés Pastrana (Colômbia), Laura Chinchilla e Miguel Ángel Rodríguez (Costa Rica) e Jorge Quiroga (Bolívia) acompanharam o pleito como observadores eleitorais.

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