Maduro desafia EUA: Constituinte acontecerá apesar de ameaça de sanções

Caracas, 19 Jul 2017 (AFP) - O governo da Venezuela advertiu os Estados Unidos que avançará com a eleição da Assembleia Constituinte, apesar da ameaça de sanções econômicas como parte de uma crescente pressão internacional que busca obrigar o presidente Nicolás Maduro a retirar o projeto.

"Se Donald Trump (...) se atreveu a dizer Constituinte não, nós lhe dizemos: Constituinte sim, sim, sim. Constituinte agora ou nunca" - declarou Maduro ao abrir uma reunião do Conselho de Defesa.

"Vamos mobilizar uma grande força anti-imperialista e no dia 30 de julho vamos derrotar todos os planos intervencionistas do Império (EUA), de seus lacaios da América Latina e do mundo".

Ao anunciar uma série de medidas para enfrentar a ameaça de Trump, o presidente informou que na quarta-feira será deflagrado um "plano especial de justiça de emergência (...) para a busca e captura de todos estes conspiradores e para um castigo exemplar".

Maduro explicou que o plano combinará esforços do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), da Justiça Militar e do Ministério do Interior.

Segundo o presidente venezuelano, o Conselho de Defesa também discutiu medidas econômicas e energéticas para se enfrentar as eventuais sanções, já que os Estados Unidos são um dos principais compradores do petróleo da Venezuela, praticamente o único produto de exportação do país.

Donald Trump assegurou na segunda-feira que "tomará rápidas e fortes medidas econômicas" se Maduro persistir em realizar, no dia 30 de julho, a eleição da Constituinte, que a oposição considera uma "fraude" do chavismo para se perpetuar no poder e fazer da Venezuela "outra Cuba".

"Os Estados Unidos não ficarão passivos enquanto a Venezuela desmorona", afirmou Trump em nota oficial, sem detalhar o alcance das medidas.

Segundo o presidente americano, apesar de 7,6 milhões de venezuelanos terem votado contra a Constituinte no domingo em um plebiscito simbólico organizado pela oposição, essas ações são "ignoradas por um mau líder que sonha se tornar um ditador".

O país petroleiro, que vive uma profunda crise econômica pela queda dos preços do petróleo, exporta para os Estados Unidos cerca de 800.000 barris diários (bpd), de uma produção relatada pela estatal PDVSA de 1.972.000 bpd.

Além da escassez de alimentos e medicamentos e de uma descontrolada inflação, a Venezuela vive há quase quatro meses protestos que deixaram 96 mortos, com os quais a oposição rejeita a Constituinte e exige a saída de Maduro do poder.

- Cerco internacional -O cerco internacional se estende. Além dos Estados Unidos, a União Europeia (UE), o secretário-geral da OEA, Luis Almagro, e os governos de Espanha, Alemanha, Canadá, Brasil, Argentina, México, Colômbia, Peru e Panamá pediram a Maduro que retirasse o projeto.

O mandatário rechaçou esses pedidos e chamou de "insolente" a chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Federica Mogherini, que não descartou sanções.

Maduro foi particularmente duro com seu homólogo colombiano, Juan Manuel Santos, afirmando que "não governa nem a Colômbia mas acredita ser o presidente da Venezuela".

A França pediu, na segunda-feira, "diálogo sincero" para resolver a crise, enquanto uma centena de legisladores da Colômbia e do Chile denunciaram Maduro à procuradoria do Tribunal Penal Internacional (TPI) em Haia por violação de direitos humanos.

O chanceler venezuelano, Samuel Moncada, afirmou que com suas ameaças os Estados Unidos "cavam" um "fosso" em suas relações com a Venezuela -ambos os países estão sem embaixadores desde 2010-, e acrescentou que, por ordem de Maduro, fará uma revisão profunda dos vínculos bilaterais. "Não aceitamos humilhações de ninguém", manifestou.

Moncada anunciou que a Venezuela declarou 'persona non grata' os ex-presidentes Vicente Fox (México), Jorge Quiroga (Bolívia), Andrés Pastrana (Colômbia), Laura Chinchilla e Miguel Ángel Rodríguez (Costa Rica), observadores do plebiscito e que defenderam uma maior pressão internacional para deter a Constituinte.

Em um áudio distribuído à imprensa, o chanceler da Costa Rica, Manuel González, defendeu os ex-presidentes mencionados e qualificou a declaração do governo venezuelano de "censurável".

Segundo González, a declaração reflete uma atitude comum de Caracas, "que tem um desprezo por aquelas pessoas que pensam diferente, que lutam por uma solução pacífica para o retorno da democracia na Venezuela".

De volta ao país, o ex-presidente Rodríguez disse ao jornal local La Nación que não há "honra maior para um costarriquenho que ser 'persona non grata' para uma ditadura".

Por outra parte, o presidente da Bolívia, Evo Morales, aliado de Maduro, considerou como uma "conspiração econômica" a advertência de Trump.

- "Paralisação total" -Animada pelo plebiscito, a oposição ativou nesta segunda-feira o início da "hora zero", uma estratégia que combina aumento de protestos e a conformação de poderes estatais paralelos àqueles que estariam a serviço do governo.

Nesta terça-feira, o Parlamento, de maioria opositora, iniciou o trâmite para a designação de novos magistrados da alta corte.

Como preâmbulo da "escalada definitiva para a próxima semana", a oposição convocou uma greve cívica na quinta-feira, pedindo que empresários, comerciantes e funcionários de meios de transporte suspendam suas atividades, e que a população não saia para trabalhar.

"Significa a paralisação total. Todos os cidadãos têm o dever de pressionar pela restituição da ordem constitucional. A mensagem é que este país não vai tolerar uma fraude constituinte", assegurou nesta terça-feira o dirigente opositor Freddy Guevara.

Maduro, que considerou "ilegal" o plebiscito por não ter tido aval do poder eleitoral -acusado de governista- assegura que a oposição busca derrotá-lo com o apoio dos Estados Unidos, que segundo diz financia os protestos.

O presidente pediu uma chance para sua Constituinte, um "suprapoder" que regirá o país por tempo indefinido, sob a promessa de que trará a paz e a recuperação econômica.

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