Oposição desafia Maduro e convoca população a ocupar ruas

Em Caracas

  • Ronald Schemidt/AFP

    28.jul.2017 - Manifestante é detido durante protesto em Caracas, na Venezuela

    28.jul.2017 - Manifestante é detido durante protesto em Caracas, na Venezuela

A oposição venezuelana convocou nesta sexta-feira (28) seus seguidores a ocupar as principais ruas do país no próximo domingo, quando serão eleitos os membros da Assembleia Constituinte, desafiando a proibição de protestos decretada pelo governo do presidente Nicolás Maduro.

"Que o povo que deseja a democracia saia às ruas no domingo e ocupe todas as artérias do país", disse o líder opositor Henrique Capriles em entrevista da Mesa da Unidade Democrática (MUD). "Maduro, você colocou a corda no pescoço, jogou sua última cartada...", advertiu Capriles.

Nesta sexta-feira, a presença de opositores nas ruas foi menor, após a proibição do governo aos protestos contra a Constituinte. Após concluir pela manhã a greve geral de 48 horas, que deixou oito mortos, pequenos grupos bloqueavam as ruas da capital, sob uma persistente chuva.

Clima de tensão toma conta de Caracas perto da Constituinte


Com o fim da greve, o tráfego passou a fluir com normalidade na capital, onde amplos setores permaneciam vazios desde quarta-feira. Muitas barricadas foram retiradas e o comércio voltou a abrir.

"É normal que haja medo, mas as pessoas continuam nas ruas, apesar de tudo. Eles decidiram prosseguir com esta loucura (Constituinte). A partir de segunda-feira, se há alguém em aperto, será o senhor Maduro", disse o deputado opositor Freddy Guevara.

Em meio à repressão, o prefeito de Iribarren, o opositor Alfredo Ramos, foi detido por não remover barricadas levantadas durante os protestos, como determinou o Tribunal Supremo de Justiça.

Será um confronto aberto, pois o governo proibiu as mobilizações que afetem a eleição dos 545 constituintes e ameaçou com prisão de cinco a 10 anos quem boicotar a ordem, medida rejeitada pela Anistia Internacional.

Mais de 100 mortos

O Ministério Público informou que um jovem de 18 anos morreu nesta sexta-feira durante os protestos. A vítima, identificada como Gustavo Villamizar, foi baleada na cidade de San Cristóbal, no estado de Táchira (oeste).

A onda de protestos contra Maduro já deixou 113 mortos, em quatro meses, segundo o Ministério Público, que nesta sexta retirou uma das vítimas da lista após realizar uma investigação.

Para Maduro, os Estados Unidos distorcem a realidade para fazer crer que a Venezuela está "à beira de uma guerra", depois de Washington ordenar que seus diplomatas tirem seus familiares do país.

"Estão criando a sensação de que estamos à beira de uma guerra e que a insurreição fascista que promovem está vencendo", disse o chanceler Samuel Moncada a convidados internacionais para a eleição, no domingo.

O departamento de Estado americano determinou na véspera a saída das famílias de seus diplomatas e autorizou a partida voluntária de seus funcionários na Venezuela, devido à crise política e à violência.

No mesmo sentido, o Canadá recomendou a seus cidadãos evitarem viajar à Venezuela, e disse para os que já estão no país saírem.

O governo mexicano pediu precaução a seus cidadãos com viagem marcada para a Venezuela.

A Air France anunciou a suspensão de seus voos entre Paris e Caracas entre 30 de julho e 1º de agosto, "devido à situação na Venezuela", recordando que "a segurança de seus clientes e de suas tripulações é sua prioridade".

Ueslei Marcelino/Reuters
24.jul.2017 - Manifestante seguram bandeira com desenho do presidente Nicolás Maduro durante protesto em Caracas, na Venezuela

Alta tensão

A Constituinte aumentou a tensão em um país polarizado e mergulhado - apesar de sua riqueza petroleira - em uma profunda crise, com uma inflação absurda e grave escassez de alimentos e remédios.

Maduro, cuja gestão é rejeitada por 80% da população, segundo o Datanálisis, assegura que a Constituinte garantirá a paz e a recuperação econômica.

"Vamos jogar nossa cartada, a que vai ganhar este jogo, e esta cartada é a Assembleia Nacional Constituinte", disse Maduro, afirmando que ela trará paz e estabilidade econômica.

A MUD decidiu não participar da votação, alegando que a Constituinte convocada em referendo foi elaborado pelo governo para criar uma Carta Magna que instaurará uma ditadura no país.

O vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, telefonou ao líder opositor venezuelano Leopoldo López para reafirmar a promessa do presidente Donald Trump de responder com fortes ações econômicas à formação de uma Constituinte.

Pence defendeu a libertação "total e incondicional de todos os presos políticos na Venezuela, eleições livres e justas", a reabilitação da Assembleia Nacional e o respeito aos direitos humanos.

O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, declarou que seu país não reconhecerá os resultados da Constituinte, "uma Assembleia que tem origem espúria e cujos resultados não poderão ser reconhecidos".

O líder da Eurocâmara, Antonio Tajani, afirmou que "as eleições do próximo domingo (...) supõem um novo golpe contra a democracia por parte do regime Maduro", e expressou sua solidariedade para com o Parlamento venezuelano, dominado pela oposição.

Diante do medo de caos e violência durante a votação, milhares de venezuelanos estão deixando o país em direção ao Brasil e à Colômbia.

A eleição de domingo combinará voto por região e setor social, e 62% dos 19,8 milhões de eleitores poderão votar duas vezes, o que dificulta o cálculo de participação, destaca o especialista eleitoral Eugenio Martínez.

O Conselho Nacional Eleitoral (CNE) decidiu flexibilizar os requisitos de votação, permitindo aos eleitores votar em qualquer seção, outro complicador para a apuração.

Ferido, violinista símbolo de protestos na Venezuela toca instrumento

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