Maduro enfrenta sanções dos EUA e crescente isolamento internacional

Caracas, 1 Ago 2017 (AFP) - O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, enfrenta sanções dos Estados Unidos e um crescente isolamento internacional por levar adiante uma Assembleia Constituinte que segundo Washington e seus adversários o tornam um "ditador".

O secretário americano do Tesouro, Steven T. Mnuchin, anunciou nesta segunda-feira que todos os ativos do presidente venezuelano "sob a jurisdição dos Estados Unidos estão congelados", ao denunciar que "as eleições ilegítimas de ontem confirmam que Maduro é um ditador que ignora a vontade do povo".

O assessor de Segurança Nacional da Casa Branca Herbert McMaster declarou que "Maduro não é apenas um líder ruim, agora é também um ditador" que se "une ao exclusivo clube que inclui (Robert) Mugabe, Bashar al-Assad e Kim Jong Un".

O governo de Donald Trump tomou as medidas contra Maduro, no poder desde 2013, um dia depois da eleição dos membros da Assembleia Constituinte, da qual a oposição venezuelana não participou por considerar "fraudulenta".

"Que caralho nos importa o que diz Trump! O que importa é o que diz o povo da Venezuela!" - declarou Maduro ao celebrar o que qualificou de "triunfo histórico" da revolução, com uma votação para a Constituinte que reuniu oito milhões de eleitores (41,5%), segundo o Conselho Nacional Eleitoral (CNE).

Na noite desta segunda-feira, em mensagem na TV, Maduro afirmou: "não obedeço ordens imperialistas, eu não obedeço governos estrangeiros, sou um presidente livre".

Segundo Maduro, as sanções de Washington são "uma reação colérica porque o povo da Venezuela e seu presidente desobedeceram sua ordem de suspender a Assembleia Nacional Constituinte (...) mas o povo venezuelano decidiu ser livre".

A partir de agora, Maduro governa com uma Assembleia Constituinte super-poderosa que ameaça radicalizar o conflito com a oposição e provocar um isolamento internacional.

"A Venezuela amanhece mais dividida e isolada do mundo", advertiu Julio Borges, presidente do Parlamento, um dia após a eleição da Assembleia Constituinte.

A votação foi marcada pela violência, com um saldo de dez mortos, elevando a 125 o número de vítimas fatais em quatro meses de manifestações contra o governo.

A Assembleia Constituinte, que terá 545 membros, deverá tomar posse na quarta-feira na sede do Parlamento, controlado desde 2016 pela opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD), que não reconhece este novo órgão.

Maduro alertou que os deputados da oposição poderão ser alvos da Assembleia Constituinte, que será dotada de super-poderes. "Acabou a sabotagem da Assembleia Nacional, vamos colocar ordem (...) Será necessário retirar a imunidade parlamentar...", advertiu.

A Assembleia Constituinte vai liderar o país por tempo indefinido, estando acima até mesmo do presidente. Será responsável por redigir uma nova Constituição, que a oposição acredita que será usada para instaurar uma ditadura comunista.

O organismo será integrado pelos principais líderes do chavismo, entre eles Diosdado Cabello e Cilia Flores, esposa de Maduro.

"Não reconhecemos este processo fraudulento, para nós é nulo, não existe", disse o líder opositor Henrique Capriles, ao convocar novos protestos.

- Não pode fazer parte de solução -Na mesma direção dos Estados Unidos, que condenou a eleição "viciada" e anunciou sanções contra Maduro, Colômbia, Panamá, Peru, Argentina, Costa Rica, México e Espanha ignoraram a Constituinte, e o Brasil exortou Maduro a suspender sua instalação.

Já a União Europeia expressou sua "preocupação com o destino da democracia na Venezuela". "A Comissão tem sérias dúvidas sobre se o resultado da eleição pode ser reconhecido", declarou a porta-voz do executivo da UE, Mina Andreeva.

A União Europeia (UE) também apontou a responsabilidade de Caracas para "restaurar o espírito da Constituição e a confiança perdida" com sua tentativa de "estabelecer instituições paralelas".

O ministro britânico das Relações Exteriores, Boris Johnson, pediu uma "ação urgente" do governo da Venezuela para deter a divisão do país, que está "a beira do desastre".

Em defesa de Maduro, Cuba denunciou "uma bem concertada operação internacional, dirigida a partir de Washington e com o apoio do secretário-geral da OEA, destinada a silenciar a voz do povo venezuelano, ignorar sua vontade e impor a rendição mediante ataques e sanções econômicas".

Além de Cuba, El Salvador, Bolívia e Nicarágua manifestaram seu apoio à Venezuela.

O país atravessa uma severa crise econômica, com prolongada escassez de medicamentos e alimentos, uma inflação que poderia chegar a 720% e uma queda do PIB de 12%, segundo do FMI.

- Ambição ditatorial -A Procuradora-Geral da Venezuela, Luisa Ortega, afirmou que o país está diante de uma "ambição ditatorial" de Maduro, e que não reconhece a Constituinte.

"Eu me dirijo ao país (...) para desconhecer a origem, o processo e suposto resultado da imoral Constituinte presidencial (...). Estamos frente a uma ambição ditatorial".

"Essa Constituinte presidencial não tem legitimidade. É uma piada com o povo e sua soberania. Veremos um poder absoluto nas mãos de uma minoria", sentenciou a funcionária.

Maduro e sua Constituinte contam com apoio dos poderes Judiciário, Eleitoral e Militar. Mas 80% dos venezuelanos rejeitam seu gestão e 72% seu projeto, segundo o instituto Datanálisis.

Maduro está muito enfraquecido e sendo pressionado. Se respeitar a Constituição e convocar eleições, o chavismo seria perdedor. Com essa aposta, rejeitada em massa no país e no exterior, tenta ganhar tempo e se perpetuar no poder", disse à AFP o presidente do Inter-American Dialogue, Michael Shifter.

"Esta Constituinte nasce banhada em sangue. Nasce ilegítima porque é muito difícil auditar a quantidade de pessoas, mas tecnicamente podemos verificar que aconteceram muitas irregularidades", disse o analista Nícmer Evans, um socialista crítico de Maduro.

"O socialismo venezuelano não é sustentável, diferentemente do que aconteceu em Cuba entre 1961 e 1990, que tinha um poderoso aliado político na União Soviética que fornecia os recursos em troca de fidelidade", indicou Paul Webster Hare, da Universidade de Boston e ex-embaixador britânico em Havana.

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