Os dilemas da oposição venezuelana após a Constituinte

Caracas, 3 Ago 2017 (AFP) - A Constituinte do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, é um fato. A oposição deverá definir agora o caminho a seguir em sua luta para tomar o poder com um dilema imediato: ir ou não para a eleição de governadores.

E deve tomar a decisão após denunciar que a eleição da Assembleia Constituinte foi "a maior fraude da história". O tempo urge: a inscrição de candidaturas começa na próxima terça-feira.

"Tem que ir, ganhar o que puder, e daí incomodar. Senão, ficam com tudo", disse à AFP Adolfo Sucre, de 23 anos, funcionário de uma empresa de sistemas.

Mas nem todos pensam assim: "algumas eleições, se não há confiança no organismo eleitoral, não são viáveis", afirmou Elieva Gil, publicitária de 40 anos.

Na coalizão opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD), o debate consumiu horas de reuniões, sem decisão.

A discussão foi sacudida pelo terremoto que significou na quarta-feira a declaração da Smartmatic, empresa que fornece o sistema automatizado de votação, quando afirmou que o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) manipulou as cifras de participação.

De acordo com o CNE, mais de oito milhões de pessoas votaram (41,5% do colégio eleitoral), mas a oposição assegura que somente três milhões o fizeram. A MUD não participou porque considera a Constituinte uma "fraude" para perpetuar Maduro no poder.

- Votar e não se matar -O veterano deputado Henry Ramos Allup disse à AFP que provavelmente a MUD, coalizão integrada por cerca de 30 partidos, participará.

"Não posso falar por nenhum partido, mas a Ação Democrática [seu partido, membro da MUD] vai participar. Acredito que será aprovado", afirmou.

O parlamentar opinou que a "fraude" com a Constituinte "era evidente", porque foi uma eleição organizada apenas pelo chavismo, mas assegurou que nas regionais não ocorrerá se houver testemunhas da oposição.

"Se não inscrever, o que acontece? O governo faz as eleições e fica com as 23 governações [atualmente 20 são do chavismo e três da oposição]", declarou.

Em 2005, depois de denunciar uma fraude eleitoral em um referendo contra o falecido presidente Hugo Chávez no ano anterior, a oposição decidiu não ir para as eleições parlamentares. Isso deu ao chavismo o controle absoluto sobre o Parlamento por cinco anos.

"Temos que participar. Se o fizermos, acredito que o governo irá retirar as eleições. Caso não, vai fazê-las sem que participemos", disse uma fonte da MUD.

Ramos Allup acredita que, apesar da desconfiança no CNE, "as pessoas querem votar, não querem se matar".

Maduro, por sua vez, comemorou na quarta-feira que alguns opositores considerem participar.

"Celebro que a Ação Democrática tenha decidido inscrever os seus candidatos ante o poderoso CNE, para ir às eleições com o sistema eleitoral e as máquinas que elegeram a Constituinte, comprovada em sua eficácia", expressou.

- Seguir nas ruas? -O risco da MUD inscrever os seus candidatos a governadores, asseguram analistas, é que desanimem os protestos que há quatro meses exigem a saída de Maduro, e que deixam um balanço de 125 mortos.

"Os eleitores não entenderão. É simplesmente inconsistente, e a incoerência na política costuma ser muito cara", disse à AFP o cientista político Edgard Gutiérrez.

A oposição insistirá em manter os protestos, que cada vez contam com menos gente, começando com uma marcha ao Palácio Legislativo na sexta-feira, dia em que se instala a Constituinte.

"Qualquer decisão sobre as regionais não estará isenta de críticas, mas os protestos não vão diminuir. A Venezuela tomou uma decisão, que é a mudança política", indicou à AFP o dirigente Juan Carlos Caldera, do partido Primeiro Justiça.

- "Erro enorme" -Diferentemente de Ramos Allup, existem dirigentes que consideram que seria um erro inscrever candidatos.

"Seria um erro enorme, que descartaria o mandato de 16 de julho [referendo opositor contra a Constituinte] que foi inequívoco: a saída da ditadura como único objetivo", disse à AFP a dirigente María Carolina Machado.

De acordo com a oposição, 7,6 milhões de pessoas participaram de seu referendo simbólico em rechaço à Constituinte.

Gutiérrez opinou que, antes de pensar nas regionais, a oposição deve "lutar pela mudança do juiz eleitoral".

A decisão, no entanto, não está tomada.

"Não descartamos a participação, mas depois da fraude eleitoral, temos que ponderar. A decisão será unitária", afirmou à AFP Enrique Márquez, presidente-executivo do partido Um Novo Tempo.

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