As desilusões de um rebelde sírio

Beirute, 5 Ago 2017 (AFP) - Ele abandonou o Exército sírio após receber a ordem de disparar contra manifestantes pacíficos e lutou com vários grupos rebeldes. Seis anos mais tarde, após a forte redução do apoio dos Estados Unidos à rebelião, Abu Jaafar está cheio de desilusões.

Este rebelde de trinta anos passou três anos atrás das grades por desobedecer ordens, e se apresenta como um dos combatentes mais admirados pelos instrutores americanos.

Mas nesta guerra que já custou mais de 330.000 vidas e fez milhões de deslocados, Abu Jaafar às vezes se pergunta por qual objetivo ele luta.

"Estou deprimido e quero partir, mas acredito que se eu for embora outros farão o mesmo, o país estará em um estado pior", afirma à AFP através por meio de mensagens via WhatsApp.

O anúncio no final de julho pela administração do presidente americano Donald Trump do encerramento de um programa de apoio aos combatentes anti-regime o convenceu de que a Síria não passa de um peão em uma guerra por procuração entre as potências estrangeiras.

"Os grupos rebeldes tornaram-se peões em um tabuleiro de xadrez. O tabuleiro (do jogo) está na Turquia, Trump está de um lado e (o presidente russo Vladimir) Putin do outro", lamenta.

- Coberto de sangue -Natural da província de Homs, Abu Jaafar, cujo verdadeiro nome é Khaled Karzun, entrou aos 17 anos em uma escola de oficiais das forças especiais.

Em 2011, quando começaram os protestos exigindo reformas políticas, recebeu a ordem de atirar contra manifestantes na região onde estava implantado. "A repressão foi tão brutal que não poderia descrevê-la", relata.

Seis meses depois, Abu Jaafar e vários oficiais se amotinaram, mas acabaram capturados e condenados a 15 anos de prisão em Saydnaya, onde sua esposa podia visitá-lo duas vezes por ano.

"Três horas antes da visita, era torturado e espancado para aparecer coberto de sangue", diz ele. Ele foi libertado em 2014 após a redução de sua sentença.

Em uma semana, juntou-se ao movimento rebelde Hazm quando a rebelião lutava contra o regime em várias regiões, incluindo Aleppo, a segunda maior cidade do país.

À época, Estados Unidos e outros países aliados treinavam e armavam grupos rebeldes, incluindo o Hazm, por meio de uma sala de operações na Turquia, conhecida pelo seu acrônimo turco MOM.

Jaafar passou um mês em treinamento na Arábia Saudita, mas ao retornar à Síria decepcionou-se com a atitude um tanto corrupta de seus companheiros. "Eu perdi os anos mais emocionantes da revolução porque estava na cadeia. A revolução então transformou-se em negócio".

"Eu me rebelei pela honra, outro o fez contra a injustiça, outro porque seu irmão estava na prisão", afirma. "Mas hoje, cada um trabalha por seus próprios interesses". Ele deixou Hazm em setembro de 2014.

- Filho morto -Durante vários meses, trabalhou como motorista de ônibus perto de Aleppo. Sua esposa deu à luz um menino. "Ele viveu 21 dias. Morreu em um ataque aéreo".

No início de 2016, foi recrutado pela União Fastaqem, uma facção rebelde em Aleppo. "Recebíamos armas a cada mês, salários, equipamentos médicos, veículos..." do MOM, diz ele.

Dirigiu o treinamento de membros do Fastaqem na Turquia e no Catar, países que apoiam os rebeldes. "Tinha muito boas relações com os americanos, eles gostavam muito de mim".

Mas com a retomada de Aleppo pelo regime, o grupo enfraqueceu.

Jaafar se engajou então nas Brigadas Mutassem, outra facção rebelde que combate o grupo Estado Islâmico (EI).

A Brigada continua a receber o apoio do Pentágono, por meio de um programa diferente.

Abu Jaafar agora combate o EI e não o regime. "Talvez chegue a nossa vez, e o Pentágono cessará o seu apoio", afirma.

Atualmente, a prioridade dos Estados Unidos na Síria é acabar com o EI. Desta forma, concentram a sua ajuda nas Forças Democráticas Sírias, uma aliança curdo-árabe, que tenta expulsar os jihadistas de seu reduto sírio de Raqa.

Em Azaz (norte), onde vive com sua esposa e filha de seis anos, Abu Jaafar se pergunta o que vai acontecer.

"Aleppo terminou e Raqa pertence à FDS. É difícil. Após o regime, tivemos (o chefe do EI) Abu Bakr al-Baghdadi. Depois de Baghdadi, tivemos Mohammad Jolani", chefe do ex-ramo sírio da Al-Qaeda.

"Tenho apenas 31 anos, mas tenho visto mais coisas do que alguém com 90".

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