Cúpula militar tenta calar suspeitas de divisão no entorno de Maduro

Caracas, 8 Ago 2017 (AFP) - Rodeado de tanques e centenas de soldados, o comando militar venezuelano tentou nesta segunda-feira deixar de lado qualquer dúvida sobre seu apoio ao presidente Nicolás Maduro, após um confuso ataque a uma base que deixou dois mortos.

A cúpula militar, liderada pelo ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, apareceu na TV estatal em uma zona agreste não identificada para reafirmar sua lealdade a Maduro e à revolução.

"Tenham a certeza de que contam com uma Força Armada Nacional Bolivariana unida e com altíssima moral", afirmou Padrino ao entregar um novo parecer sobre o ataque na madrugada de domingo, do qual participaram três oficiais, um deles na ativa.

No manifesto repetido depois em rede nacional, Padrino López era acompanhado pelos generais Remigio Ceballos e Jesús Suárez, chefes do Comando Estratégico Operacional e do Exército, respectivamente.

Três tanques apontando seus canhões para o céu, um blindado e soldados armados seguiram a leitura do relatório, que confirmou dois agressores mortos e três militares feridos - um deles gravemente - durante a incursão no forte de Paramacay, na cidade de Valencia.

Padrino reafirmou que foi um "ataque terrorista" executado por cerca de 20 "mercenários", sem "princípios nacionalistas, pagos de Miami por grupos de extrema direita" ligados a opositores.

Os agressores roubaram armas, acrescentou o oficial, indicando que agiram em cumplicidade com o responsável de sua custódia, o tenente Jefferson García.

Este oficial fugiu junto com 10 homens, entre eles o líder da operação, o capitão Juan Carlos Caguaripano, expulso em 2014 por rebeldia e traição à pátria.

A Força Armada deflagrou uma operação para capturá-los.

"Aqui não houve nenhum levante, é a mentira feita política", disse mais cedo o poderoso dirigente Diosdado Cabello, ao negar que tivesse se tratado de uma rebelião na Força Armada, como insinua a oposição.

- Objetivo cumprido -Depois de três horas de combates em Paramacay foram detidos oito homens, incluindo o tenente Oswaldo Gutiérrez, que estava foragido acusado de roubo de munições. Um dos capturados está ferido.

Apesar de se desconhecer o alcance do ataque e se foi executado por um comando misto, especialistas concordam que isto evidencia um mal-estar entre oficiais da Força Armada, principal alicerce de Maduro.

"Indica o crescente descontentamento entre policiais e militares, embora o comando militar siga aliado ao governo. Podem ser esperados novos incidentes à medida que aumente esse desconforto", assegurou à AFP o analista Diego Moya-Ocampos.

Pouco antes do ataque, Caguaripano, de 38 anos, apareceu em um vídeo junto com 15 homens usando roupas camufladas, se declarou em rebelião contra a "tirania ilegítima" de Maduro.

"Não somos terroristas nem paramilitares. Somos oficiais da reserva e alguns da ativa. Foi uma operação limpa, impecável, um sucesso", declarou da clandestinidade à AFP o capitão Javier Nieto.

Acrescentou que o comando alcançou o objetivo de subtrair "entre 98 e 102 armas, calibre 156 e AK-47".

- Mais radicalização -Para a especialista em assuntos militares Rocío San Miguel, o "beneficiado" com esta ação é "o setor mais radical do governo, que exibe um triunfo e começará a perseguir civis e militares".

Em maio, o líder opositor Henrique Capriles assegurou que 85 soldados, sargentos e capitães foram presos por discordar da repressão aos protestos opositores, que deixam 125 mortos em quatro meses.

"Há muito descontentamento, muito mal-estar, muita desmoralização, porque todos esses generais estão envolvidos em atos de corrupção e tráfico", assegurou Nieto.

A coalizão opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD) convocou a população a fechar ruas e avenidas nesta terça-feira, por seis horas, em mais um dia de protestos para exigir a saída de Maduro.

A oposição tem pedido reiteradamente a Força Armada que rompa com Maduro, que lhe deu enorme poder político e econômico, e cujo comando lhe declarou lealdade absoluta.

No domingo, considerou que o incidente foi uma expressão da crise vivida pelo país, agora nos quartéis.

O ataque acrescentou mais tensão à explosiva crise venezuelana, agravada desde a realização da Assembleia Constituinte que em seus primeiros passos destituiu a procuradora-geral, Luisa Ortega, chavista que rompeu com Maduro, a quem acusa de ter "ambições ditatoriais".

"O desarranjo institucional é evidente. O regime tenta se salvar mediante a violação em massa da Constituição sustentada na força, levando o confronto ao terreno da violência das armas", disse à AFP o analista Luis Salamanca.

Cabello, que acusa a oposição de pretender encher o país de violência, advertiu que a Constituinte poderia retirar a imunidade dos deputados opositores, maioria no Parlamento.

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