Violinista das manifestações na Venezuela lamenta fim dos protestos

Caracas, 4 Set 2017 (AFP) - Wuilly Arteaga, o violinista dos protestos que deixaram 125 mortos na Venezuela, não é capaz de contar a seus antigos companheiros de prisão, onde passou 20 dias em agosto, que a voz das ruas se calou.

Com a viralização dos vídeos onde é visto tocando o hino da Venezuela, o músico de 23 anos afirma, em entrevista à AFP, que sente pena de ver que as coisas estão paradas depois de quatro meses de intensas manifestações que exigiam a saída do presidente Nicolás Maduro do poder.

- Quando começou a se interessar por música?

Gosto de música desde sempre. Aos 9 anos vivia numa igreja com os meus pais e lá havia um teclado, e eu ficava tocando com apenas um dedo. Tinha me tirado da escola porque, segundo a religião, o mundo ia acabar e não era mais necessários estudar.

É uma igreja que se chama "Tabernáculo da Restauração". Ela proíbe usar jeans, ter celular e televisão. Meu pai era muito fanático, mas nos expulsaram quando recebi uma mensagem de texto dizendo "meu amor" de uma das "irmãs" da igreja, pois isso foi considerado adultério. Minha mãe teve de ser internada em um hospital psiquiátrico.

- Como você chegou a Caracas?

Meu pai fez um sítio em Valencia (centro), de onde sou. Mas em poucos meses me proibiram tocar violino e em 2015 me mudei para Caracas.

Tocava nas ruas e no metrô. Fiz uma audição para a Sinfônica Juvenil de Caracas e fui selecionado. Fiquei viciado em violino. Viajei para a Europa com a orquestra.

Dois anos depois começaram os problemas políticos dentro da orquestra. Obrigaram os músicos a tocar em eventos onde Maduro falava.

Comecei a ver que era tudo falso, porque todo mundo falava mal de Maduro durante os ensaios, mas depois sorriam quando ele saudava a orquestra.

- Depois de abandonar a orquestra teve que voltar a tocar nas ruas?

Nunca deixei as ruas. Quando estava na orquestra, também tocava no metrô para ter dinheiro para comer algo. Tocando no metrô ganha-se em um dia o que ganhava em um mês na orquestra.

Mas me tiraram o violino no metrô. Fiquei sem nada. Depois de um ano sem violino, comecei a tocar piano em um hotel.

- Como você chegou até as marchas opositoras?

Quando assassinaram (em 3 de maio) Armando Cañizales (jovem manifestante também violinista) senti uma grande impotência e fui tocar violino em seu enterro.

Pouco a pouco já não tocava mais para os manifestantes, queria me aproximar e tocar para os guardas.

- O governo o acusou de promover a violência.

Nunca promovi a violência, tudo que fiz é porque quero um país melhor. Estive muito tempo nas ruas e sei as necessidades que existem.

Acho que, entre os músicos, não há como continuar com um sistema de orquestras que é financiado pelo governo. Fiquei muito indignado por terem acabado com uma turnê do Sistema Juvenil de Orquestras porque o maestro Gustavo Dudamel, que representa o Sistema internacionalmente, se pronunciou contra o governo.

- Após as manifestações e tantas mortes, sente que valeu a pena?

Fui preso e ainda havia pessoas nas ruas. Quando cheguei à prisão, os jovensm que estão há meses, anos, presos diziam que era incrível que os tenham abandonado.

Quando saí, as ruas estavam completamente vazias, as pessoas caminhando como se nada tivesse acontecido. Para mim foi um golpe muito baixo. Senti muita tristeza e fiquei confuso. Todos os dias saio às ruas, ainda que esteja proibido de tocar o violino.

Ainda não aceitei que os protestos tenham acabado.

- O que você acha do esfriamento dos protestos?

Não consegui contar aos que continuam presos que não há mais ninguém nas ruas. Não queria que quando eles saíssem encontrassem a realidade com a qual me deparei porque dói muito.

- Algum dirigente opositor perguntou como você está?

Não, não recebi ligações. Quis me reunir com alguns, mas, ao que parece, estão muito ocupados, ou não estão aqui.

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