Ameaçados de expulsão, indígenas resistem em reserva de São Paulo

RESERVA INDÍGENA DE JARAGUA, Brasil, 6 Set 2017 (AFP) - "Os brancos não entendem a nossa ligação com a terra porque não moram na floresta", diz Tupã Mirim, morador de Jaraguá, uma reserva indígena a 20 quilômetros de São Paulo, decidida a resistir à redução dos seus limites territoriais.

"As pessoas acham que não há índios em São Paulo", ri o cacique Antonio Awá, tupi-guarani, mas o estado abriga 29 territórios indígenas, menos da metade dos regularizados, segundo a Fundação Nacional do Índio (Funai).

A reserva de Jaraguá foi delimitada em 532 hectares em 2015, mas no mês passado o governo federal anulou o decreto. Se passar a valer, os 720 habitantes da região ficariam espremidos em um território mínimo, de apenas 1,7 hectare, regularizado em 1987.

Das cinco aldeias no local, só restaria uma, a de Ytu, separada das demais pela rodovia dos Bandeirantes, que homenageia os desbravadores que exploraram e escravizaram a população indígena no século XVI.

Do outro lado, crianças descalças correm, em meio a dezenas de cachorros, pelos caminhos de terra de Tekoa Pyau, a "aldeia de cima".

As casas são caixas rudimentares de madeira ou latão, sem divisões, algumas adornadas com graffitis. O verde e marrom da natureza predominam. Poucas estruturas têm instalações de água e os banheiros são comuns.

Um casarão de cimento, onde funciona a pré-escola, se destaca na paisagem.

Ytu tem mais infraestrutura: água corrente nas casas, construídas nos anos 1990 pelo governo federal, um centro de saúde e uma escola estatal, que recebe 200 alunos. Lá, eles aprendem português a partir dos oito anos. A língua materna ainda é o guarani.

Jurandir Karai Jekupe, guarani de 41 anos, mora em uma dessas casas de cimento: um pequeno galpão com um telhado de duas águas. Ele o reformou para dividir em quarto e sala.

"Quando eles construíram, devem ter pensado: 'São índios, quarto pra quê, dormem nas redes'", ironiza, enquanto mostra as outras melhorias que fez no espaço, que divide com sua mulher.

A filha deles morreu em junho, antes de completar um ano. "A certidão de óbito fala de uma bactéria, mas eles nunca me explicaram o que realmente aconteceu", diz, cético. A mortalidade infantil, completa, é um problema na comunidade.

A Unidade Básica de Saúde, de medicina preventiva, abre oito horas por dia com dois médicos. As infecções respiratórias são comuns, conta uma enfermeira, que pede para ter a identidade preservada, embora assegure que o centro atende à demanda.

Thiago Karai, guarani de 22 anos, discorda: "É super pequena, sem estrutura física para poder atender de forma humana e adequada a comunidade".

"O hospital mais perto está a cerca de 10 quilômetros, mas é horrível", critica Jurandir, que não tem fotos em casa da bebê que morreu. "Por tradição", explica.

- Problemas trazidos 'pelos brancos' -Jurandir, professor da quinta série em uma escola estadual, diz que vários problemas chegaram de fora, como a contaminação e a seca do rio Ribeirão das Lavras, que passa por Ytu e antes abastecia a comunidade. "Um dos braços chega só com águas negras. Fizemos um documentário para sensibilizar, mas não conseguimos nada", lamenta.

"Outro problema trazido pelos brancos" é o abandono contínuo de animais, diz Jurandir. Com cerca de 500 cachorros e 200 gatos - castrados e vacinados por ONGs e pelo Departamento de Zoonoses -, é difícil andar sem ouvir latidos.

Thiago critica que a escola não tenha uma cantina e que os meninos tenham que comer fora, perto dos animais.

A ameaça de desalojamento com a decisão do governo é discutida nas cinco aldeias da reserva, que têm por hábito debater assuntos que impactem sua herança.

Outro tema na pauta é a manutenção do Bolsa Família. "No nosso modo de vida tradicional, a gente não precisa de dinheiro para comer. O Bolsa Família virou 'o dinheiro das crianças', e eles estão ficando mal acostumados com isso", dependentes da moeda, disse o guarani Evandro Tupá.

Por ora, o tema central é a demarcação de terras, demanda de outros povos indígenas em todo o país. Numa cerimônia de líderes guarani-kaiowá, que vieram do Mato Grosso do Sul para protestar, Elizeu Lopes exclamou: "Temer não é o dono da terra, se há união, Temer não vai fazer o que quiser".

Fora da casa de orações, a determinação para resistir é total. "No começo, a gente levou um susto, mas a gente não abaixa a cabeça, lutar é o que a gente faz há mais de 500 anos", diz Tupá Mirim, de 19 anos.

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