Lamento e Cristo mutilado: a guerra na Colômbia aos olhos do papa

Villavicencio, Colômbia, 7 Set 2017 (AFP) - Estilhaços cortaram seus braços e pernas, e desde então ele é a imagem da crueldade do conflito colombiano. Luz Marina Cañola chegou a Villavicencio trazendo o Cristo mutilado de Bojayá para ouvir o papa falar em reconciliação, após ter enterrado seus entes queridos em um massacre em 2002.

Caloña não quer enumerar quem dos seus estavam entre os 79 mortos naquele 2 de maio 15 anos atrás, quando um artefato explosivo, lançado por guerrilheiros, atingiu uma igreja onde os moradores desta comunidade negra se protegida dos combates entre as Farc e os paramilitares.

Todos os que morreram eram amigos ou familiares. Bojayá, município às margens do Pacífico, situado em Chocó, departamento (estado) mais pobre e chuvoso da Colômbia, passou a ser uma lembrança da atrocidade.

Cañola e sobreviventes demoraram três dias para levar a imagem desta região até Villavicencio (centro). O Cristo estava no templo e sua imagem ficou mutilada, após o ataque das Farc, recentemente transformadas em partido político após assinar a paz em novembro.

"O Cristo está representando como ficou todo o pessoal que morreu", disse à AFP esta mulher de 55 anos, com os cabelos presos e um sorriso ocasional.

A imagem religiosa, sem braços, nem pernas e com marcas de estilhaços, chegou ao meio-dia desta quinta-feira (7) à catedral de Villavicencio, onde foi acolhida pelas 'cantaoras de Bojayá' - mulheres, vítimas da tragédia, lideradas por Luz Marina - e por indígenas de onze etnias que lhe fizeram um corredor de honra com seus bastões de comando.

O papa Francisco chegará nesta sexta-feira a Villavicencio para abençoar o Cristo e celebrar uma missa pela reconciliação.

- "Nunca se esquecerá" -"E isto virou história/ e nunca se esquecerá/ Senhores grupos armados/ não voltem mais aqui", cantaram as mulheres dentro da igreja da cidade, porta de entrada às planícies (llanos) orientais, um dos muitos cenários do conflito colombiano.

Uns 60 guardas indígenas chegaram por terra, vindos de diferentes regiões da Colômbia, em solidariedade à comunidade afro-descendente de Bojayá e como uma "garantia de proteção" para a imagem. Também têm a expectativa de contar a Francisco as penúrias sofridas durante a interna.

Divididos em duas fileiras, ergueram seus bastões de madeira, adornados com fios coloridos amarrados, enquanto os restos da imagem de Jesus se aproximavam do altar.

A escultura terá lugar de destaque em um encontro do papa argentino em Villavicencio com milhares de afetados pelo conflito armado, que durante mais de meio século confrontou guerrilhas, paramilitares e agentes do Estado, deixando mais de sete milhões de vítimas entre mortos, deslocados e desaparecidos.

"É para demonstrar e visibilizar o que foi Bojayá, e o que continua sendo, e a esperança que existe também de um território de paz, harmonia, convivência e reconciliação", explicou o pároco do município chocoano, Álvaro Hernán Mosquera, que liderou o périplo da imagem por água, terra e ar para receber a bênção papal.

Em ato privado há um ano, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que foram a principal guerrilha do continente, pediram perdão à comunidade pelo massacre de 2002.

- Canto para Francisco -"Temos que nos colocar no lugar (do outro), se não perdoamos, não nos reconciliamos", explicou Luz Marina.

Embora não esteja no programa, Cañola e suas 'cantoras' não perdem a esperança de demonstrar seu talento ao pontífice.

"Acho que o santo papa abençoar o Cristo é nos dar força, assim como ao Cristo para continuarmos lutando (...) Nós continuaremos cantando até que o mundo inteiro diga já chega", declarou Ereiza Mosquera, 'cantaora' de 59 anos, que perdeu amigos e conhecidos na chacina.

Dispostos a perdoar seus algozes, mas nunca a "apagar a memória", os moradores de Bojayá encontram em Francisco a via para cimentar a concórdia na Colômbia. Agradecidos pelo apoio irrestrito do papa ao acordo de paz com as Farc, compuseram uma música que, esperam, possa chegar aos ouvidos do papa.

"Viemos saudar o santo papa de Roma/ por vir aqui na Colômbia no processo de paz/ Cumprimentar o santo papa/ que nos abençoe neste lugar", cantou Luz Marina ao lado do altar, onde dezenas de colombianos viram o "Cristo mutilado", um dos símbolos do último conflito armado das América.

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