Verdade e justiça: Francisco se sensibiliza com vítimas na Colômbia

Villavicencio, Colômbia, 9 Set 2017 (AFP) - O papa Francisco se reuniu com as vítimas do conflito armado e exigiu "verdade e justiça" para que a Colômbia possa se reconciliar e encerrar o ciclo mais prolongado de violência no continente americano.

De Villavicencio, uma zona castigada pela guerra interna onde encerrou o seu terceiro dia de visita ao país, Francisco abraçou os que sofreram o confronto de mais de meio século do Estado com guerrilhas, grupos paramilitares e narcotraficantes.

"É indispensável também assumir a verdade (...). A verdade é uma companheira inseparável da justiça e da misericórdia. Juntas são essenciais para construir a paz", disse o pontífice.

Em um ato emotivo, escutou quatro depoimentos da violência sob a efígie do Cristo de Bojayá, mutilado durante o massacre de 79 civis que se protegiam em uma igreja dos combates entre os rebeldes das Farc e os paramilitares.

Primeiro falou com Juan Carlos Muncia, ex-guerrilheiro mutilado; depois foi a vez de Deisy Sánchez, recrutada por paramilitares; e Luz Landazury, vítima de uma mina antipessoal.

Sempre sentado, acompanhou o relato de Pastora García, que perdeu seu pai e seu marido pelas mãos dos grupos armados.

O papa, que pediu para fugirem da vingança e do ódio, apoiou o acordo que levou ao desarmamento e transformação em partido político dos rebeldes das Farc.

A Igreja Católica, que perdeu dois bispos e 89 sacerdotes no conflito, também acompanha os diálogos que com o mesmo fim o governo empreendeu com a guerrilha do ELN.

Diante de centenas de milhares de fiéis, Francisco advertiu mais cedo sobre o maior risco que a paz enfrenta na Colômbia: "todo esforço de paz sem um compromisso sincero de reconciliação será sempre um fracasso".

Após reunir 1,3 milhão de pessoas no dia anterior em Bogotá, o líder dos católicos presidiu a segunda missa a céu aberto, na qual beatificou o sacerdote colombiano Pedro María Ramírez e o bispo Jesús Jaramillo.

O primeiro foi assassinado a facadas em 1948 e o segundo, a tiros em 1989, em episódios da grande violência na Colômbia.

- Faltam "os ossos" -Ao invocar o perdão das vítimas, o papa esclareceu que "o recurso da reconciliação concreta não pode servir para se acomodar em situações de injustiça".

Já convertidas em um partido legal, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) se submeterão a uma justiça especial que prevê que os responsáveis de crimes atrozes, incluindo agentes do Estado, evitem a prisão se confessarem os seus crimes, repararem as vítimas e prometerem nunca mais cometer atos de violência.

O pacto é rechaçado por amplos setores da sociedade, liderados pela influente direita, por considerá-lo indulgente com a rebelião comunista.

Em uma carta pública ao pontífice, Rodrigo Londoño, também conhecido como Timochenko, líder do agora partido político, suplicou o "perdão por qualquer lágrima ou dor" que seus homens tenham causado.

"Mais que o perdão falta que nos entreguem os ossos. Isso é o que peço a Timochenko, para ter para onde ir rezar por nossos familiares", disse à AFP Jesús Corrales, representante de um grupo de vítimas do Valle del Cauca.

Vestido de branco, este homem de 52 anos assegurou ter sido vítima tanto da guerrilha como dos paramilitares: do primeiro porque achavam que era informante do governo e do segundo porque chegou deslocado a uma área que controlavam.

A conflagração interna deixou ao menos 7,5 milhões de vítimas, entre mortos, desaparecidos e deslocados.

- Francisco, "verde" -De Villavicencio, o papa voltou a advogar por "uma reconciliação com a natureza". "Não é por acaso que inclusive sobre ela tenhamos desatado nossas paixões possessivas, nosso afã de submissão", reprovou.

Antes de seu retorno a Bogotá, o papa ajudou a plantar uma árvore como símbolo da reconciliação e em sintonia com a defesa que fez da proteção do meio ambiente.

Cerca de 1.500 índios também estiveram em Villavicencio, a 70 km de Bogotá, para ver o pontífice. Representantes de etnias fizeram um corredor de homenagem em sua entrada na missa e subiram ao altar.

"Queremos que o papa ajude o mundo a proteger a água, que protejam os povos indígenas", assinalou Luis Alfredo Acosta, coordenador nacional da Organização Nacional Indígena da Colômbia (ONIC).

Francisco viaja no sábado para Medellín, hoje recuperada da violência do narcotráfico, para celebrar uma missa. No domingo concluirá sua visita em Cartagena, cidade turística com profundas divisões sociais.

Calcula-se que pelo menos 4,5 milhões de fieis se mobilizem durante a estadia do papa Francisco na Colômbia.

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