Para Madri, violência policial na Catalunha é respeito a Estado de direito

Barcelona, 1 Out 2017 (AFP) - A golpes de cassetete e tiros de balas de borracha, a Polícia espanhola fez de tudo neste domingo (1) para reprimir um referendo proibido pela Justiça sobre a independência da Catalunha, deixando mais de 90 feridos, enquanto Madri e Barcelona responsabilizam um ao outro pelos incidentes.

À noite, durante um pronunciamento do Palácio de La Moncloa, em Madri, transmitido pela televisão, o chefe do governo conservador espanhol, Mariano Rajoy, afirmou que "o Estado de direito mantém sua fortaleza e sua vigência".

"Hoje não houve um referendo de autodeterminação na Catalunha", disse, enquanto a apuração se iniciava em alguns locais da região.

Para ele, as forças de segurança, criticadas pela violência ao reprimir a realização da consulta, "cumpriram com sua obrigação e com o mandado que tinham da Justiça" na Catalunha, que havia proibido o referendo de autodeterminação, organizado por dirigentes separatistas, acrescentou.

Desde o momento de abertura das seções, a Polícia e unidades anti-motins da Guarda Civil intervieram para apreender as urnas nas seções de votação em Barcelona e Girona, cidade do presidente separatista Carles Puigdemont.

Em diversos locais, policiais com capacetes forçaram as portas das seções diante de militantes que entoavam cânticos separatistas durante este escrutínio que constitui, segundo o jornal El País, o "maior desafio" do Estado espanhol desde a morte do ditador Francisco Franco, em 1975.

A secessão da Catalunha, um dos motores econômicos da Espanha, representando cerca de 19% do PIB e 16% da população nacionais, teria consequências inestimáveis.

Os enfrentamentos já deixaram 92 feridos, dois deles em estado grave - um homem de 70 anos que sofreu um infarto, e uma pessoa que teve um ferimento em um olho -, segundo os serviços de saúde regionais. Em toda a Catalunha, 844 pessoas solicitaram "assistência médica", segundo a mesma fonte.

Doze policiais ficaram feridos, segundo o Ministério do Interior. Alguns foram alvos de pedradas.

Em Barcelona, a Polícia investiu contra centenas de manifestantes que interditavam a via, enquanto os oficiais retiravam as urnas confiscadas e dispararam balas de borracha, segundo testemunhas.

A TV regional catalã TV3 exibiu continuamente durante todo o dia imagens de enfrentamentos entre policiais e manifestantes nas proximidades das seções eleitorais, as quais também circularam nas redes sociais.

- Milhares de catalães conseguem votar -Puigdemont, chefe do Executivo catalão, denunciou o que chamou de "violência injustificada", enquanto o governo central em Madri respondeu que ele e seu governo são os "únicos responsáveis" pelos eventos do dia por terem convocado o referendo, apesar da proibição da Corte Constitucional.

Um total de 319 seções eleitorais que deveriam servir ao referendo de autodeterminação foram fechadas pelas forças de ordem, segundo o governo regional, mas muitos catalães conseguiram votar, apesar de tudo, constataram jornalistas da AFP.

O governo catalão havia anunciado no último minuto da manhã deste domingo a implantação de um sistema universal de censo que permitiria votar sem importar a seção.

Em algumas situações, os eleitores votaram em cédulas impressas em casa ou sem envelope, constataram jornalistas da AFP.

"Ninguém pode roubar meu voto e a satisfação de ter votado, independentemente do que aconteça. Cheguei a chorar porque faz anos que nós lutamos por isto e eu vi na minha frente uma mulher de 90 anos que votou em cadeira de rodas", relatou à AFP Pilar Lopez, de 54 anos, na pequena cidade de Llado.

No bairro barcelonês de Nou Barris, Enrique Calvo, um aposentado de 67 anos, originário de uma região vizinha, não votou porque não quis dar "legitimidade" ao escrutínio. "Está mal administrado, tanto de parte do governo catalão, como do governo central de Madri", afirmou.

Sinal do caráter excepcional da situação em um país apaixonado pelo futebol, o FC Barcelona jogou sem torcida esta tarde. O time, um dos mais populares da Espanha, decidiu jogar a portas fechadas em seu estádio de Camp Nou contra o Las Palmas, pois a Liga de futebol recusou-se a adiar a partida.

O estádio, considerado o maior da Europa com capacidade para 99.000 pessoas, estava assombrosamente silencioso a cada jogada do capitão da equipe, o argentino Lionel Messi, e cinco vezes ganhador do prêmio Bola de Ouro da Fifa.

- Maioria defende referendo legal -Uma separação da Catalunha, região com 7,5 milhões de habitantes e a mais rica da Espanha, seria um salto no escuro, comparável ao do Brexit, lançado por um referendo realizado em junho de 2016.

Os moradores da região, onde o separatismo ganha terreno desde o início dos anos 2010, estão divididos quase em partes iguais sobre a independência. Mas os catalães apoiam majoritariamente, com mais de 80%, um referendo de autodeterminação legal, segundo as pesquisas mais recentes.

Nem as ações judiciais, nem as detenções ou as apreensões dissuadiram Puigdemont de organizar este escrutínio que, segundo Madri, não dispõe nem de listas eleitorais adequadas, nem de comissão eleitoral, nem de contagem de votos por um organismo imparcial.

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