Governo espanhol decidido a impedir declaração unilateral de independência na Catalunha

Madri, 2 Out 2017 (AFP) - O governo da Espanha demonstrou nesta segunda-feira (2) que está decidido a impedir uma eventual declaração unilateral de independência da Catalunha, um dia depois do referendo de autodeterminação proibido pela Justiça e marcado pela violência policial.

A intensa mobilização das últimas semanas deve prosseguir nas ruas da Catalunha, com uma greve geral convocada para terça-feira (3) na região por 44 organizações, incluindo os dois maiores sindicatos - União Geral de Trabalhadores (UGT) e Comissões Operárias (CCOO).

Nesta segunda-feira, dois protestos foram convocados para o centro de Barcelona: um deles, na Praça Universidade, onde centenas de pessoas gritavam "as ruas serão sempre nossas".

O presidente regional, Carles Puigdemont, pediu a retirada da Polícia enviada por Madri à Catalunha e solicitou uma mediação internacional da crise.

Puigdemont se reuniu com seu governo, horas depois de afirmar que os catalães "ganharam o direito de ter um Estado independente".

A afirmação foi contestada pelo ministro espanhol da Justiça, Rafael Catalá.

"Se alguém pretende declarar a independência de uma parte do território em relação à Espanha, como não pode, como não está dentro de suas competências, será necessário fazer tudo o que a lei permite para impedir que isso aconteça", disse o ministro.

Catalá respondeu, assim, a uma pergunta sobre o eventual uso do artigo 155 da Constituição espanhola, que permite intervir na autonomia de uma região, caso "não sejam cumpridas as obrigações que a Constituição ou outras leis impõem".

Nas próximas horas, o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, reúne-se com o líder da oposição socialista, Pedro Sánchez, e com o do partido centrista "Ciudadanos", Albert Rivera, quarta força no Parlamento.

Eles devem abordar o futuro político imediato, mas um diálogo do primeiro-ministro conservador com Barcelona é considerado muito difícil, após as críticas que recebeu pelas imagens da Polícia, agredindo as pessoas que desejavam votar na consulta.

O próprio Sánchez expressou seu "profundo desacordo com as ações policiais", enquanto a prefeita de Barcelona, Ada Colau, uma figura emergente da política catalã, chamou Rajoy de "covarde" e pediu sua renúncia.

No total, 893 pessoas receberam atendimento médico em consequência das operações policiais. Os agentes utilizaram cassetetes, balas de borracha e agrediram várias pessoas, incluindo bombeiros e agentes da Polícia regional da Catalunha, os Mossos d'Esquadra.

- Comissão Europeia quer diálogo -Segundo o Executivo catalão, o "sim" a um "Estado independente em forma de república" venceu com 90%, ou seja, 2,02 milhões de votos, e uma taxa de participação de 42,3%.

A votação não teve nenhuma das garantias habituais, já que o censo eleitoral não era transparente, não havia junta de supervisão, nem cabines para assegurar o voto secreto.

Puigdemont afirmou, porém, que enviará os resultados ao Parlamento da Catalunha, para que atue de acordo com a lei do referendo, aprovada no início do mês passado.

Com base em suas afirmações, o Executivo catalão pode declarar de maneira unilateral a independência de uma região fundamental para a Espanha, já que representa 16% de sua população e 19% do PIB.

Apesar das críticas e dos pedidos de diálogo, no exterior nenhum país defende a independência da Catalunha.

A Comissão Europeia pediu a Madri e a Barcelona que "passem rapidamente do confronto ao diálogo", alegando que "a violência nunca pode ser um instrumento na política".

"É altamente improvável que a Catalunha se converta em um Estado independente nos próximos anos", mas, com as imagens da violência policial, "as forças separatistas conseguiram uma vitória tática", afirmou o analista Holger Schmieding, do banco Berenberg.

Para o analista, o que aconteceu no domingo pode complicar o dia a dia do governo de Rajoy, minoritário no Parlamento.

O Executivo conservador está tentando aprovar o orçamento de 2018, mas, para isso, precisará do apoio dos deputados do Partido Nacionalista Basco (PNV), uma formação que critica duramente a gestão de Rajoy a respeito da crise catalã.

Na Bolsa de Madri, as ações dos bancos catalães Caixabank e Sabadell operavam em baixa.

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