Fidel queria se livrar do 'Che', afirma soldado que o capturou

Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, 5 Out 2017 (AFP) - Ao enviar "Che" Guevara para a Bolívia, onde foi morto em 9 de outubro de 1967, o pai da revolução cubana, Fidel Castro, queria se livrar de um amigo que se tornara um incômodo, afirma à AFP o militar que o capturou.

Poucos dias antes do 50º aniversário de sua morte, Gary Padro, comandante da unidade do exército boliviano que o fez prisioneiro, lembra bem o que Che lhe havia dito: não era ele quem havia decidido ir à Bolívia.

Depois de deixar seu cargo no governo cubano e viajar para a África e a então Checoslováquia, Ernesto Guevara foi autorizado por Fidel Castro a retornar para Cuba clandestinamente.

No local, "houve uma reunião e formou-se uma equipe de cubanos para acompanhá-lo" na Bolívia, diz o ex-soldado, agora com 78 anos, em sua casa em Santa Cruz (leste).

Mas Gary Prado não tem dúvidas: Fidel enviou "Che" Guevara para este país "para se livrar dele", uma teoria que ele defende em seu livro "A guerrilha imolada".

"(Che) não conhecia nada sobre a Bolívia", diz o general reformado, em cadeira de rodas desde que foi atingido por um tiro acidental há cerca de trinta anos.

Durante os 11 meses em que Che Guevara e seus cinquenta guerrilheiros estavam em território boliviano, nunca representaram um perigo real, assegura.

- Fuzilado na escola -Mas seus dois primeiros ataques, em 23 de março e 10 de abril de 1967, conseguiram surpreender um exército boliviano desorganizado e mal armado, matando 18 soldados.

Na época, a Bolívia recebeu ajuda dos Estados Unidos para treinar 650 soldados.

E, quando os homens de Gary Prado, comandante da unidade dos "Rangers", capturaram Che, este último tinha apenas 17 guerrilheiros ao seu lado. "Eles não representavam um perigo para ninguém", diz com sua voz suave e quase inaudível.

Ernesto Guevara não era mais do que a sombra de si mesmo, sujo e com fome. "Ele tinha uma pequena tigela com quatro ovos e a protegia mais do que sua vida", relata Gary.

Ferido por um tiro na perna, usava sapatos feitos de trapos e carregava uma arma danificada.

Depois de ter comido, bebido e fumado alguns cigarros pela tarde e na noite de 8 de outubro, Che já se sentia melhor. "Ele me perguntou o que nós faríamos com ele e eu lhe disse que seria julgado como os outros prisioneiros", recorda Gary, então com 28 anos.

Mas, mesmo que o revolucionário acreditasse que tinha mais valor vivo do que morto, no dia seguinte, enquanto Gary Prado e seus homens procuravam os sete últimos guerrilheiros de sua equipe, o exército o levou para a escola do vilarejo de La Higuera, por ordem de La Paz.

Entre os muitos voluntários que se apresentaram, foi o sargento Mario Teran que o fuzilou, fazendo, inconscientemente, o guerrilheiro de 39 anos virar uma lenda. Ele nunca falou sobre este assunto.

- Os Rolex do guerrilheiro -Entre os objetos, jornais e vários filmes fotográficos não revelados em sua posse, Che, que entrou na Bolívia com passaporte uruguaio, entregou a Gary Prado dois relógios Rolex que Fidel Castro havia oferecido aos guerrilheiros ao se despedir.

Um pertencia a seu amigo Tuma, que havia morrido em batalha: ele o entregou ao comandante de seu batalhão. O outro, marcado com uma pedra por Che Guevara para sinalizar que era dele, Gary guardou.

Quando Cuba e Bolívia restabeleceram relações com o retorno da democracia no país andino em 1983, Gary Prado enviou esse relógio ao ministro cubano do Interior para entregá-lo aos familiares de Che.

"Eu nunca soube se ele foi entregue para a sua família".

Cinquenta anos após a morte do revolucionário, os soldados que precipitaram sua queda boicotarão a homenagem que o governo do presidente Evo Morales organiza em Vallegrande, na presença do exército e dos filhos de "Che".

Ao invés disso, eles inaugurarão no domingo em Santa Cruz um monumento para recordar os 54 soldados mortos em combate contra a guerrilha de Ernesto Guevara, colocando "fim ao seu sonho utópico".

Gary Prado, que se tornou embaixador na Grã-Bretanha e no México após sua carreira militar, lamenta ser lembrado como aquele que capturou esta "figura magnífica que não corresponde à realidade" e não por ter "ajudado no retorno da democracia" em seu país.

Ele cumpre uma sentença de mais de cinco anos de prisão domiciliar por ter participado, segundo o governo, de uma suposta operação de secessão da região de Santa Cruz.

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