Europeus procuram soluções para salvar acordo nuclear iraniano

Paris, 11 Out 2017 (AFP) - Precursores das negociações nucleares com o Irã e parceiros econômicos de Teerã, os europeus têm muito a perder com um eventual questionamento do acordo de Viena e querem preservar as conquistas de um texto que julgam crucial para a segurança internacional.

Há alguns meses os demais países signatários do acordo - Grã-Bretanha, França, Alemanha, Rússia e China - acompanham inquietos os sinais vindos da Casa Branca.

E, com a aproximação de uma decisão final do presidente americano Donald Trump, os chanceleres francês, britânico e alemão multiplicaram, nas últimas semanas, os contatos, reuniões e campanhas de lobby direcionados ao governo americano.

Trump deve declarar, até domingo (15) se Teerã respeita seus compromissos e se o acordo de 2015, que coloca o programa nuclear iraniano sob vigilância estreita em troca de uma suspensão de sanções internacionais, é de interesse nacional para os Estados Unidos.

Segundo diversas fontes, os americanos não vão "certificar", uma decisão que não significa a morte do texto, mas vai fragilizar uma construção conjunta arduamente conquistada, após mais de uma década de negociações.

Durante a Assembleia Geral da ONU em setembro, a primeira-ministra britânica Theresa May e o presidente francês Emmanuel Macron assumiram o papel central de elogiar as virtudes do acordo para o dirigente imprevisível. Claramente em vão, Macron chegou a admitir que "não compreendia" a estratégia adotada por Washington.

- Questão de 'confiança' -Os esforços agora se concentram no Congresso americano, que vai receber essa questão explosiva. De fato, se Trump não "certificar" o acordo, o Congresso terá 60 dias para decidir se volta a impor, ou não, sanções contra Teerã.

Os diplomatas europeus em Washington multiplicaram, nas últimas semanas, os encontros com dirigentes da maioria republicana, bem como com democratas.

"Nossa embaixada está perto do legislativo. Ela procura um diálogo com o Congresso, fala com ele para expor nossos argumentos e explicar por que, aos nossos olhos, o acordo nuclear iraniano é um sucesso", confirmou no começo desta semana o porta-voz da diplomacia alemã, Rainer Breul.

"Juridicamente, podemos encontrar soluções, compreendidas dentro dos mecanismos do próprio acordo, sobre a reintrodução de sanções. Mas a questão é, antes de tudo, política", avalia um diplomata europeu, destacando que "esse acordo também é baseado na confiança".

Uma confiança relativa, mas crucial, por parte dos europeus que começaram a recuperar o fôlego no mercado iraniano. As francesas Total, Renault e Peugeot, a alemã Siemens e a europeia Airbus assinaram, recentemente, contratos prolíficos.

Mas, quase um ano após a entrada em vigor, algumas empresas continuam hesitantes em investir, com certas transações ainda muito suscetíveis aos efeitos das sanções americanas.

"Investir no Irã não é exatamente como investir na Noruega. E se amanhã o Congresso restabelecer novas sanções, eu não vejo um diretor de empresa dizer ao seu conselho de administração: olha, temos projetos no Irã", ironiza o diplomata europeu.

- Mensagem ruim para Pyongyang -Segundo o pesquisador Thierry Coville, do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris), os europeus estudam uma reativação dos procedimentos legais e regulamentares tomados em 1996 para contrariar a lei de Amato, que sancionou os investimentos no setor energético na Líbia e no Irã.

"Se houver novas sanções, entraremos numa situação muito complicada. Os europeus devem mostrar uma frente unida e tentar montar um cordão de isolamento com os russos e os chineses", que também têm seus interesses para defender, acredita Coville.

No plano político, os europeus não deixaram de insistir nos riscos de iniciar uma crise com o Irã no momento em que a tensão aumenta perigosamente na questão nuclear na Coreia do Norte.

Um questionamento do acordo de Viena, que todos concordaram ser respeitado pelo Irã, "enviaria essa mensagem: não negociem, sobretudo não negociem com o Ocidente, porque ele não honra sua palavra", lamenta um alto diplomata europeu.

A França tentou aberturas, propondo discussões sobre a influência regional iraniana e sobre seu programa balístico. Mas o acordo em si não pode ser renegociado, garantiram autoridades europeias.

"Nós nunca escondemos nossa preocupação com o papel desestabilizador do Irã na região, mas eu estou convencido de que o acordo nuclear foi uma conquista histórica que, sem nenhuma dúvida, deixou o mundo mais seguro", insistiu, nesta terça-feira (10), o chefe da diplomacia britânica Boris Johnson.

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