Aliados do governo catalão querem proclamação definitiva da independência

Barcelona, 13 Out 2017 (AFP) - As alas mais radicais do separatismo pressionam o presidente da Catalunha, Carles Puigdemont, a proclamar a República na região, cuja economia começa a acusar os efeitos da crise política.

O partido de esquerda radical CUP, aliado chave do governo separatista catalão, pediu a Puigdemont que retire a suspensão da declaração de independência da Catalunha ante a ameaça de Madri de acabar com parte da autonomia da região.

"Apenas com a proclamação da república seremos capazes de respeitar o que a maioria expressou nas urnas", afirma o partido em uma carta ao presidente regional, em referência ao referendo de autodeterminação inconstitucional de 1 de outubro.

"Se pretendem seguir aplicando (...) o artigo 155 da Constituição e querem continuar nos ameaçando ou amordaçando, que o façam com uma República já proclamada", afirma na carta a CUP, partido fundamental para a manutenção do governo independentista, formado por uma coalizão de conservadores e progressistas.

Na quinta-feira, a influente associação independentista Assembleia Nacional Catalã, que organizou várias manifestações nacionalistas nos últimos anos, fez uma advertência similar.

"Diante da negativa do Estado espanhol a qualquer proposta de diálogo, não faz nenhum sentido manter suspensa a declaração de independência", afirmou em um comunicado.

De acordo com o governo regional, na consulta, proibida pela justiça, 90% dos eleitores votaram 'sim' e, apesar da taxa de participação de 43% do eleitorado, Puigdemont se comprometeu a aplicar o resultado.

No entanto, em uma sessão parlamentar confusa na terça-feira, o presidente regional afirmou que assumia o mandato de criar uma república, mas pediu a suspensão dos efeitos da independência, como um "gesto" para buscar uma mediação internacional em sua disputa com Madri.

A manobra esbarra na posição do primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, que rejeita de modo veemente qualquer tipo de mediação e enviou na quarta-feira um requerimento ao dirigente catalão para que esclareça se declarou ou não a secessão.

Puigdemont tem até segunda-feira para responder. Caso não apresente uma resposta ou afirme que proclamou a República, deve retificar a medida até o dia 19 de outubro ou o governo central aplicará o artigo 155 da Constituição, que permite retirar competência do governo regional e, inclusive, suspender o mesmo.

- Pressão econômica -Nas últimas semanas, as ruas de Barcelona registraram manifestações gigantescas a favor e contra a independência, com pessoas de todo o espectro político, de extrema-esquerda secessionista até a ultradireita espanhola, obcecada pela unidade nacional.

A agitação aumentou ainda mais com a pressão econômica. Nos últimos dias, diante da incerteza reinante, várias empresas de renome retiraram a sede social da Catalunha, como o bancos CaixaBank e Sabadell, a Gas Natural, a Abertis e a editora Planeta.

O último alerta veio do Mobile World Congress, o grande evento mundial dos telefones celulares que acontece todos os anos em Barcelona. De acordo com o jornal digital El Confidencial, a organização cogita adiar a data da próxima edição, prevista para fevereiro de 2018, e inclusive deixar Barcelona no futuro.

Nesta sexta-feira, a vice-presidente do governo, Soraya Sáenz de Santamaría, afirmou que a crise na Catalunha pode obrigar o país a reduzir as previsões de crescimento.

"Sem uma solução rápida para este assunto, podemos ser obrigados a reduzir as expectativas de crescimento econômico para 2018, que era de 2,6%", disse.

A incerteza também afeta o turismo, em uma região que recebe 25% das pessoas que visitam a Espanha, terceiro maior destino turístico mundial.

Alguns hotéis registram um número de vagas maior que o normal e vários estabelecimentos reduziram os preços à metade.

A agência de classificação Standard and Poors advertiu para o risco de "recessão" na região, caso a tensão aumente com Madri.

A Catalunha, região de 7,5 milhões de habitantes que representa 19% do PIB espanhol, está dividida sobre a independência.

Uma ampla maioria, no entanto, defende a organização de um referendo de autodeterminação autorizado pelo governo de Madri, que se nega de forma taxativa alegando que a soberania cabe ao conjunto dos espanhóis e não a uma parte deles.

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