Moradores de Veneza sonham com maior autonomia em relação a Roma

Veneza, 20 Out 2017 (AFP) - Em Veneza é quase impossível encontrar um cartaz sobre o referendo de autonomia convocado no domingo no Vêneto e na Lombardia, mas quase todos os habitantes dizem que vão votar para pôr fim à "má gestão" do Estado, embora rejeitem qualquer comparação com a Catalunha.

Para os venezianos, o problema fundamental tem a ver com os impostos que, segundo eles, não beneficiam o bastante seu território. No ano passado, o Vêneto apresentou um saldo fiscal -diferença entre o que os habitantes pagam com taxas e impostos e o que recebem como gastos públicos- de 15,5 bilhões de euros.

"Isso poderia não ser um problema se essas taxas fossem bem investidas, mas a verdade é que em nível nacional se gastam mal 30 bilhões de euros por ano", lamenta o presidente da região, Luca Zaia, que convocou o referendo consultivo com o qual pretende reivindicar competências adicionais em matéria de educação, infraestruturas, etc.

Zaia e seu homólogo lombardo, ambos membros da ultra-direitista Liga Norte, querem recuperar a metade do saldo fiscal de sua região. Um discurso que ganha adeptos e recebe o apoio da centro-direita, incluída a Força Itália de Silvio Berlusconi, das organizações patronais e dos sindicatos.

"É justo que os impostos que pagamos se gastem em nosso território e não na Sicília", afirma Giuseppe Colonna, um veneziano de 84 anos.

"Aqui a administração administra bem as coisas, enquanto "que há uma má gestão dos recursos por parte do Estado central em Roma", considera Nicola Tenderini, um aquarelista de 52 anos.

Na loja ao lado, Andrea Vianello, que vende alimentos ratifica a mensagem: "Queremos continuar ajudando a Itália e as regiões mais desfavorecidas, mas gostaríamos de ter um pouco mais de dinheiro para nós".

Segundo ele, a autonomia está no DNA de Veneza, que foi uma república independente durante quase um milênio, antes de sua queda em 1797.

- Sem vontade de secessão -No Vêneto, que se orgulha da taxa de desemprego de 6,7% em relação a uma média nacional de 11,2%, contribui com 10% do PIB italiano graças a uma extensa rede de pequenas e médias empresas.

Instalado em Solzano, a cerca de 20 km de Veneza, Gianluca Fascina é um dos 7.500 artesãos da região que trabalha no setor da moda. Votará sim na consulta, como muitos de seus colegas da Confartigianato, a associação de artesãos.

"Espero que [uma maior autonomia] permita que as coisas funcionem melhor para as empresas em matéria de prazos de pagamento", por exemplo, e nos dê "mais possibilidades de crescer e ser ajudados pela região", explica o dono da Gifa Ricami, uma empresa com 10 funcionários que faz bordados.

Gicami, contudo, não deseja a independência de sua região. "O Vêneto faz parte da Itália e continuará na Itália. Não é um referendo como na Espanha", compara.

Um discurso compartilhado por Nicola Tenderini, que considera que "a maioria das pessoas não querem uma secessão".

Embora a vitória do sim seja inquestionável, há dúvidas em torno da participação, sobretudo na Lombardia onde a consulta suscita pouco interesse.

No Vêneto se confere uma maior importância à identidade regional, e se espera uma participação maior, necessária porque a consulta só terá validade se alcançar uma participação de 50%.

Para os verdadeiros separatistas, muito minoritários, o referendo é um primeiro teste. "Permitirá que a gente se reúna como venezianos", explica Alessio Morosin, fundador do Independência Veneta.

"Sabemos que não permitirá alcançar os objetivos esperados, tanto por motivos políticos como orçamentários, já que o Estado tem uma dívida de mais de 2,3 bilhões" de euros. Quando comprovarem o fracasso, os venezianos deverão "fazer uma eleição mais radical" frente a um Estado que os explora, afirma.

Morosin reconhece não obstante que o "sentimento" separatista "ainda não é robusto", embora se diga "otimista" sobre o futuro.

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