Família descarta afogamento de ativista Maldonado em rio na Argentina

Buenos Aires, 27 Out 2017 (AFP) - A família do ativista pró-mapuche Santiago Maldonado, encontrado morto em 17 de outubro em um rio do sul da Argentina, após ficar desaparecido por 78 dias, disse nesta sexta-feira (27) que descarta que o rapaz tenha se afogado sozinho.

"Santiago apareceu morto. Foi assassinado, é um desaparecimento forçado", declarou Sergio Maldonado, irmão de Santiago, em coletiva de imprensa em Buenos Aires, na sede da Anistia Internacional.

O artesão e tatuador de 28 anos desapareceu em 1º de agosto em uma violenta operação da Polícia Militar em Pu Lof de Cushamen, pequeno assentamento mapuche, instalado em terras vendidas ao empresário italiano Luciano Benetton, 1.800 km a sudoeste de Buenos Aires.

O corpo foi encontrado em 17 de outubro boiando no rio Chubut, 300 metros rio acima do local onde o rapaz foi visto pela última vez com vida por mapuches quando cruzavam o rio para fugir dos policiais.

O único dado certo é que o corpo não tinha lesões, segundo declarações do juiz Gustavo Lleral na sexta-feira passada, ao final da necropsia. Lleral disse que os resultados definitivos demorariam duas semanas.

Segundo vários veículos de comunicação argentinos, um relatório preliminar indicaria que Santiago Maldonado morreu afogado e que o corpo sempre esteve no rio, onde haveria um poço de três metros de profundidade.

Outra versão, mencionada pelo semanário Tiempo Argentino, apontaria, ao contrário, que o corpo não teria ficado mais de cinco dias na água e que seu estado de conservação era bom.

"Não entendo que os peritos venham opinar sem ter todas as provas, nem os relatórios dos legistas", lamentou Sergio Maldonado.

A advogada da família, Verónica Heredia, disse que quando o encontrou, o corpo de Maldonado podia ser visto a olho nu da margem.

"Nós não dizemos que o corpo de Santiago foi colocado, mas que o corpo não estava. Nesse local era impossível que tivesse estado (durante 78 dias). Isto nos traz mais perguntas que o Estado deve responder", advertiu, ao lembrar que já tinham sido feitas rastreamentos prévios no local.

Santiago Maldonado, que tinha 1,72 metro de altura, não sabia nadar e usava muita roupa para se proteger das baixas temperaturas nesta região descampada da Patagônia em pleno inverno austral, quando foi prestar solidariedade a um protesto mapuche em Cushamen.

A advogada explicou que este rio de degelo tem nesta época 1,30 metro de profundidade, mas em 1º de agosto, dia do desaparecimento, a mesma era de apenas 30 centímetros.

"Santiago não desaparece caminhando à margem do rio, mas em um contexto de repressão da gendarmeria [Polícia Militar], é preciso elucidar o que aconteceu", declarou Mariela Belski, da Anistia Argentina, ao reivindicar uma investigação "independente e sem interferências do poder Executivo".

O caso manteve os argentinos em vigília, em um país polarizado, onde o governo de Mauricio Macri apoiou a ação da gendarmeria na comunidade mapuche.

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