Ataque em NY foi planejado durante semanas e cometido em nome do EI

Nova York, 2 Nov 2017 (AFP) - O autor do atentado que deixou oito mortos e 12 feridos em Nova York, um uzbeque, planejou seu crime durante semanas e cometeu o ataque em nome do grupo extremista Estado Islâmico (EI), segundo a Polícia.

Sayfullo Saipov, de 29 anos, lançou uma caminhonete alugada contra pedestres e ciclistas na terça-feira, por volta das 15h00 locais, no moderno e caro bairro de Tribeca, no atentado mais mortal cometido em Nova York desde que a rede Al-Qaeda derrubou as Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001.

Enquanto crianças e seus pais celebravam o Halloween, Saipov saiu da caminhonete segurando armas falsas e gritou "Allahu Akbar" (Alá é grande), antes de ser baleado no estômago por um agente e ser detido.

A procuradoria federal de Nova York, que denunciará Saipov por apoio material e de recursos à organização estrangeira terrorista e por violência e destruição com veículo, colheu o depoimento do autor do atentado no hospital.

Inspirado em vídeos difundidos pelo grupo Estado Islâmico (EI), Saipov reconheceu que planejou o atentado "há cerca de um ano", antes de decidir, há dois meses, que utilizaria uma grande caminhonete para "causar o máximo de vítimas".

Saipov também revelou ter alugado uma caminhonete, no dia 22 de outubro, para treinar e escolheu o dia do Halloween "para ter certeza de que haveria muita gente nas ruas".

O uzbeque reconheceu ainda ser o autor das notas em árabe que mencionam o grupo Estado Islâmico e foram encontradas próximas a caminhonete utilizada no ataque, segundo a procuradoria.

Cinco dos falecidos são argentinos, parte de um grupo de 10 amigos que comemorava 30 anos da formatura na Escola Politécnica da cidade de Rosário. Outro deles está internado na Unidade de Terapia Intensiva e ainda não sabe o que aconteceu, disse o cônsul argentino Mateo Estremé a jornalistas.

O chefe da Diplomacia americana, Rex Tillerson, falou por telefone nesta quarta-feira com seu contraparte argentino, Jorge Faurie, e expressou condolências pelas vítimas do país.

Os amigos passeavam em pares de bicicleta quando "ouviram o barulho de uma caminhonete e não tiveram tempo de reagir, começaram a ser atropelados", contou Estremé. "Lembra uma cena dantesca, quase infernal, na qual os corpos estão no chão, o sangue está lá. Aconteceu um tiroteio com o motorista da caminhonete e, posteriormente, foram levados aos hospitais", acrescentou.

Uma mulher belga também morreu. Do total de 12 feridos, nove seguem no hospital.

- 'Ao pé da letra' -Saipov, que chegou aos Estados Unidos em 2010 e residia legalmente em Paterson, Nova Jersey, já foi interrogado no hospital onde está internado.

John Miller, vice-chefe do serviço de Inteligência e contraterrorismo da Polícia de Nova York, avaliou que Saipov parece ter seguido "ao pé da letra as instruções que o EI publicou nas redes sociais para que seus seguidores realizem ataques deste tipo".

Os atentados com veículos que são lançados contra pedestres ou ciclistas já foram utilizados por simpatizantes do EI no Ocidente, incluindo em Barcelona, Londres, Estocolmo e Nice, onde um caminhão conduzido por um tunisiano matou 86 pessoas em 14 de julho de 2016.

Saipov nunca foi investigado pelo FBI - a Polícia Federal americana - nem pela Inteligência policial de Nova York, mas aparentemente se relacionava com pessoas investigadas pelas autoridades, explicou Miller.

"Parece que tinha alguma conexão com indivíduos que eram alvo de investigação, embora ele não fosse", detalhou.

O governador de Nova York, Andrew Cuomo, disse que o autor do atentado se radicalizou após chegar aos Estados Unidos e agiu como "um lobo solitário".

- 'Animal' -O presidente Donald Trump, que enfrenta o pior atentado de inspiração extremista de seu governo, classificou Saipov como "animal" e disse que havia sido um contato para até 23 imigrantes ou futuros imigrantes aos Estados Unidos.

Trump sustentou que "certamente consideraria" enviá-lo à prisão de Guantánamo, em Cuba, e anunciou que deu início ao processo para acabar com o popular programa de atribuição de Green Cards ou vistos de residência por loteria, por meio do qual Saipov entrou no país.

O programa, criado em 1990, outorga permissões de residência permanente a cerca de 50.000 solicitantes de todo o mundo a cada ano, e abre as portas para que seus familiares os sigam.

Trump já reduziu a cifra de entrada de refugiados em mais de 50%, endureceu os requisitos para outorgar vistos e tentou proibir a entrada de turistas de 11 países, grande parte deles com populações de maioria muçulmana. Mas não o Uzbequistão, também de maioria muçulmana, que fez parte da antiga União Soviética, tem fronteira com o Afeganistão e onde há muita pobreza, corrupção e um governo autoritário.

Saipov viveu na Flórida e em Ohio antes de se mudar para Paterson, cidade antigamente industrial em Nova Jersey, a cerca de 30 quilômetros de Nova York, onde morava com sua esposa e três filhos.

Os vizinhos do bairro imigrante e de classe operária reagiram horrorizados à notícia, e disseram que sabiam muito pouco de seu discreto vizinho.

"É um bairro muito tranquilo. Deixamos nossas portas sem trancar. Pensávamos que estávamos bastante seguros, mas saber que alguém assim vive nessa rua dá medo", disse Kimberly Pérez, de 20 anos, que mora em frente à casa de Saipov.

A famosa maratona de Nova York, com a participação de mais de 51.000 corredores e que será vista por 2,5 milhões de pessoas nas ruas da cidade, será realizada no domingo como o planejado, mas a segurança será reforçada, informou o prefeito Bill de Blasio.

A segurança também foi reforçada nas estações de metrô e trem, em aeroportos, túneis e na Times Square.

"Tenho medo. Isso está acontecendo em todos os lados e agora aqui", disse a 100 metros do local do atentado Megan Brosterman, de 38 anos, enquanto segurava a mão de sua filha de quatro anos.

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