Afetados pelo desastre de Mariana ainda esperam reconstrução

Bento Rodrigues/Brasilia, Brasil, 4 Nov 2017 (AFP) - Dois anos depois do maior acidente ambiental da história do Brasil, nem um tijolo foi colocado nos terrenos previstos para a reconstrução dos povoados arrasados pela lama contaminada por rejeitos de mineração.

De Bento Rodrigues, a primeira localidade atingida pela enxurrada, "só restou saudades, mais nada", resume Antônio Quintão, que era dono de duas casas que foram devastadas.

O desastre se originou quando cedeu, a 5 km dali, o dique de contenção com quase 40 milhões de metros cúbicos de resíduos de mineração da empresa Samarco, de propriedade da Vale e da anglo-australiana BHP-Billiton.

O tsunami de lama matou 19 pessoas, arrasou várias localidades de Minas Gerais e desceu mais de 600 km pelo Rio Doce até chegar ao Oceano Atlântico, devastando a fauna e a flora em seu caminho, segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Hoje, Antônio continua trabalhando como operador de máquinas da Vale e mora com a família em uma cidadezinha perto de Mariana, com um aluguel e o equivalente a um salário mínimo (R$ 937,00), pagos pela Samarco.

Ele e outros afetados esperam a reconstrução de Bento Rodrigues em um local diferente daquele atingido pela lama. Aguardando o avanço do projeto, que ainda não saiu do papel, ele se resigna.

"Tínhamos nossas casinhas. Podiam ser simples, mas eram nossas. Agora estamos vivendo de esmola da empresa, em uma casa que não é nossa", disse à AFP este homem de 49 anos.

- Cidade fantasma -No dia da tragédia, Antônio saía do galinheiro e se dirigia para a sala de casa quando sentiu um barulho ensurdecedor.

"Eu perguntei: 'Esse avião está pousando na rua?", brincou com a esposa. Mas logo depois soube que era algo pior: uma enxurrada marrom descia morro abaixo, após a ruptura do dique.

Sem pensar, pegou os 3.000 reais que mantinha no guarda-roupas e saiu depressa em sua picape, tentando resgatar o maior número possível de vizinhos antes que a lama cobrisse tudo.

Apesar do trauma, ele consegue relatar com riqueza de detalhes os minutos que se seguiram, até aparecer o primeiro helicóptero dos bombeiros, que conseguiu encontrar os primeiros sobreviventes em meio à lama e também as primeiras vítimas.

Dois anos depois, as ruínas das casas continuam intactas, inabitáveis. Bento Rodrigues parece uma cidade fantasma. Só se percebe a passagem do tempo pelas trepadeiras e arbustos que começaram a engolir os pedaços de parede que ficaram de pé.

- Reconstrução demorada -Por causa do acidente, a Samarco enfrenta várias ações judiciais, entre elas um processo por homicídio contra 22 pessoas, incluindo altos executivos da empresa. Ainda não houve condenações e o processo está suspenso desde agosto para investigar denúncias da empresa de que haveria ilegalidades na coleta de provas.

Enquanto isso, a empresa realiza tarefas de indenização e reparo de danos, através da Fundação Renova, entidade criada após um acordo entre a Samarco, a Vale e a BHP com o Governo Federal e o de Minas Gerais.

A reconstrução das cidades de Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e Gesteira é um dos planos da Fundação.

O projeto urbanístico pretende recriar a distribuição original das casas, escolas e igrejas de cada localidade, em uma tentativa de restaurar não só as estruturas materiais, mas também os laços comunitários entre os vizinhos.

Embora o projeto de Bento Rodrigues - que tinha 600 habitantes - seja o mais adiantado, ainda está em fase de obtenção de licenças ambientais, da aprovação pela comunidade dos protótipos finais das casas e da contratação das empresas para iniciar as obras.

"O processo é muito participativo", respondeu à AFP Marcus Vinícius Ferreira, porta-voz da Fundação Renova, quando perguntado sobre a demora.

Ferreira assegura que "está tudo dentro do cronograma" e que os moradores poderão se instalar nas três localidades no primeiro semestre de 2019.

A Renova assegura ter destinado até o momento 2,5 bilhões de reais para o reparo de danos, de um total de R$ 11,1 bilhões previstos até 2030.

Apesar de ter teto e comida garantidos, Antônio não tem grandes esperanças em relação à nova Bento Rodrigues.

Para ele, o mais difícil do dia a dia continua sendo lidar com a própria consciência.

"Trabalho para uma empresa que destruiu tudo o que eu tinha. Mas não tem como fazer nada, tem que seguir trabalhando", debate-se.

"Nós levantamos a cabeça e seguimos a vida".

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