Um ano da eleição de Trump: América Latina se acomoda com diálogo novo e difícil

Washington, 6 Nov 2017 (AFP) - A eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, que na quarta-feira completa um ano, forçou a América Latina a estabelecer um novo e, até agora, difícil diálogo com uma Casa Branca, concentrada nas prioridades internas.

O surgimento na região de vários governos interessados em uma relação mais profunda com os Estados Unidos coincidiu com a instalação em Washington de uma administração inclinada a fortalecer o protecionismo de seu comércio internacional e em parte vincular seus laços diplomáticos com a região nesta perspectiva.

Se o presidente anterior, Barack Obama, dedicou parte de seu segundo mandato aos esforços para recompor a relação de Washington com a região até onde fosse possível, a chegada de Trump à Casa Branca marcou o início de um diálogo sobre bases claramente diferentes.

Mão firme e sanções contra a Venezuela, retrocesso nas relações com Cuba, rigidez com México e América Central, e ameaças sutis - mas claras - à Colômbia são facetas da tradução em termos reais do 'mantra' do novo presidente americano: Estados Unidos primeiro.

Inclusive duas medidas estritamente de alcance interno - a decisão de limitar o Status de Proteção Temporária (TPS), e de não renovar o programa Daca para imigrantes chegados ao país na infância - têm um impacto negativo direto na região. Por conta disso, as luzes de alerta se acendem.

No caso da Venezuela, Trump endureceu consideravelmente as sanções a funcionários do governo de Nicolás Maduro e incluiu o país - junto com Coreia do Norte e seis nações de maioria muçulmana - em seu mais recente decreto, que limita a entrada de imigrantes e refugiados.

O presidente chegou a dizer que não descartava uma "opção militar" para a Venezuela, embora isto tenha gerado reações imediatas entre aliados de Washington na região, já que abriria uma fase de instabilidade com consequências imprevisíveis.

Apenas dois dias depois dessa polêmica declaração, o vice-presidente, Mike Pence, iniciou uma viagem por Colômbia, Argentina, Chile e Panamá, que serviu para diminuir a incerteza e assegurar à região que a Casa Branca daria prioridade a ações multilaterais.

- Desavença com sócio-chave -A outra frente de atrito foi aberta com o México.

Durante a campanha eleitoral, Trump desatou uma polêmica não apenas por suas declarações sobre os imigrantes mexicanos e a necessidade da construção de um muro na fronteira, como também pelas críticas à relação comercial no âmbito do Tratado Norte-Americano de Livre-Comércio (Nafta).

Durante o novo governo, Estados Unidos, México e Canadá já realizaram quatro rodadas de renegociação de detalhes do acordo, sem que por enquanto tenham alcançado sólidos entendimentos de fundo.

Pouco antes da quarta rodada, foi vazado à imprensa um memorando interno da Casa Branca que atribui aos acordos de livre-comércio como o Nafta quase todos os males do país, a ponto de sugerir que uma parte do governo seria favorável a que Washington deixe o acordo.

No caso de Cuba, o novo presidente decidiu congelar o processo de aproximação que Obama havia iniciado, e anunciou que a nova política de Washington com Havana reforçaria o embargo comercial, que esteve em vigor durante meio século, mas sem qualquer resultado verificável.

Esta postura levou a uma situação de extrema tensão pelos supostos ataques a diplomatas americanos em Cuba. O Departamento de Estado reduziu à metade a sua embaixada em Havana e expulsou 15 diplomatas da representação cubana em Washington.

Trata-se da pior crise na relação bilateral desde que os dois países reabriram suas embaixadas em 2015.

- Advertência à Colômbia -Com a Colômbia o diálogo também ficou turvo, a ponto de ameaçar incluir este país na lista dos que não cumprem com suas obrigações em matéria de combate ao tráfico de drogas.

Os milhões de ajuda ao combate às drogas no âmbito do chamado "Plano Colômbia" se tornaram um programa de apoio ao processo de pacificação, renomeado de "Paz Colômbia", mas o aumento sustentado na produção de cocaína no país é um importante ruído no diálogo bilateral.

Argentina e Peru estão entre os países que conseguiram estabelecer um bom diálogo com o novo morador da Casa Branca, embora até agora esse canal não tenha dado resultados concretos.

Em fevereiro, o peruano Pedro Pablo Kuczynski foi o primeiro presidente latino-americano a ser recebido por Trump. Já Mauricio Macri visitou a Casa Branca em abril, mas o governo argentino deixou sete meses (de abril a novembro) sua representação diplomática em Washington sem um embaixador pleno.

No plano interno, o anúncio da suspensão do Daca deixa uma enorme interrogação sobre o futuro de cerca de 690.000 imigrantes chegados na infância, mas que regularizaram sua situação. Com o projeto suspenso, esses estrangeiros ficam novamente expostos à deportação.

O mesmo pode acontecer com cerca de 300.000 estrangeiros (em sua maioria procedentes da América Central), que se beneficiaram do TPS e cujo destino está agora nas mãos do Departamento de Segurança Interna.

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