Puigdemont interpela UE e denuncia 'golpe de Estado' na Catalunha

Barcelona, 8 Nov 2017 (AFP) - O presidente catalão destituído Carles Puigdemont atacou nesta terça-feira os líderes da União Europeia, questionando-os se vão continuar a ajudar o chefe do governo espanhol, Mariano Rajoy, no "golpe de Estado" contra sua região, sob tutela de Madri.

"Vão aceitar o resultado da votação dos catalães [nas eleições regionais de 21 de dezembro] ou vão continuar ajudando Rajoy neste golpe de Estado restringindo liberdades?" - questionou Puigdemont em um discurso diante de 200 prefeitos catalães que viajaram a Bruxelas.

"É essa a Europa que vocês propõe aos cidadãos?!" - perguntou Puigdemont em discurso dirigido ao presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, e ao titular da Eurocâmara, Antonio Tajani.

Seu governo destituído está desmembrado entre Bélgica e Madri, onde oito de seus membros estão presos de forma preventiva em meio a uma investigação por rebelião, sedição e malversação após declarar unilateralmente a independência de sua região.

A mesma acusação recai sobre Puigdemont e seus conselheiros de governo que aguardam a decisão da Justiça belga sobre a ordem de prisão e extradição emitida pela Justiça espanhola.

Com o executivo catalão dissolvido, é o governo de Rajoy que agora controla esta região de 7,5 milhões de habitantes, até a realização de novas eleições, no dia 21 de dezembro.

Os separatistas tentarão manter o poder nessas eleições, para as quais Puigdemont defendia uma frente comum dos três partidos separatistas: o seu PDeCAT (conservador), ERC (Esquerda Republicana da Catalunha), e a CUP (Candidatura de Unidade Popular, esquerda radical).

Entretanto, nesta terça-feira à noite a ERC descartou essa opção. Seu porta-voz, Sergi Sabria, afirmou em comunicado que "diante da impossibilidade de formar uma lista verdadeiramente unitária, tentaremos nos coordenar com base em candidaturas diferentes".

Com sua viagem ao coração da Europa, Puigdemont busca ganhar repercussão internacional para sua causa, assim como evitar "uma onda duríssima de violência" na região, justificou-se na entrevista.

"O Estado espanhol preparou uma onda de duríssima repressão, violência", explicou. Seu advogado disse à AFP que o político temia uma espiral de agitação e repressão se fosse detido na Espanha.

De fato, as prisões de seus companheiros de governo provocaram indignação na Catalunha. Para quarta-feira foi convocada uma greve geral e para sábado, uma grande manifestação.

Os protestos chegaram a Bruxelas, para onde se deslocaram 200 prefeitos separatistas catalães para pedir a liberdade dos "presos políticos" no bairro europeu da cidade, entre as sedes do Executivo comunitário e do Conselho da União Europeia.

"Queremos que Bruxelas nos ouça e tire nossos companheiros da prisão", disse à AFP José Fuentes, prefeito de Pont de Molins, um pequeno município de 500 habitantes localizado a 20 quilômetros da fronteira com a França.

- Incógnitas eleitorais -As pesquisas preveem novamente um empate técnico entre partidários e contrários à secessão. Nas eleições de 2015, os independentistas conseguiram uma maioria absoluta em cadeiras, mas não no voto (47,8%).

Nessas eleições, o PDeCAT, antes chamado Convergência, se apresentou em coalizão com o ERC. Conseguiram 62 cadeiras das 135 que, com as 10 da esquerda radical CUP, deram o poder parlamentar aos separatistas.

Para as próximas eleições, o PDeCAT, ameaçado por um forte desabamento, apostava na repetição da coalizão, enquanto o ERC, que se beneficiaria da queda de seus aliados, se inclinava por listas separadas diante da perspectiva de governar a Catalunha pela primeira vez desde 1936.

As duas opções apresentavam vantagens: uma candidatura única os beneficiaria pelo sistema eleitoral espanhol que "prioriza o resultado mais alto", explicou Joan Botella, decano de Ciência Política da Universidade Autônoma de Barcelona.

Mas também pode distanciar eleitores potenciais "do ERC que nunca votariam em uma lista com a direita, ou o contrário", afirma o analista político Josep Ramoneda.

Outras incógnitas acompanham estas atípicas eleições: o que farão os políticos presos se forem escolhidos deputados? E os que estão em Bruxelas?

À frente os independentistas têm a tarefa de reativar seu eleitorado, desencantado depois do fracasso da declaração de independência.

Apenas 15% acreditam que o conflito desembocará na secessão, segundo uma pesquisa publicada pelo jornal La Vanguardia.

Os separatistas "chegaram ao ponto máximo que suas forças permitem", disse Ramoneda.

"Não têm votos suficientes, não têm uma potência estrangeira que os apoie, tampouco uma parte importante do poder econômico catalão, ou o poder de insurreição (...). Sem isso não podem ir além", aponta.

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