Habitantes de Sanaa temem efeitos de maior bloqueio

Sana, 9 Nov 2017 (AFP) - Os habitantes de Sanaa começam a sofrer as consequências do endurecimento do bloqueio imposto pela coalizão liderada pela Arábia Saudita, que poderia levar o Iêmen à "maior fome" das últimas décadas, segundo a ONU.

Os residentes da capital controlada pelos rebeldes xiitas huthis, esgotados depois de três anos de guerra civil, dois deles sob bloqueio, temem que a situação piore depois que Riad anunciou novas medidas como o fechamento temporário das fronteiras aérea, marítima e terrestre do Iêmen.

A ONU também se preocupa com a situação, e um de seus responsáveis de alto escalão mencionou na quarta-feira o risco de que o Iêmen sofra "a maior fome" das últimas décadas se não retirarem o bloqueio.

O Conselho de Segurança, reunido a portas fechadas, alertou sobre "a situação humanitária catastrófica" no país e a "importância de manter todos os portos e aeroportos do Iêmen em estado de funcionamento".

Em Sanaa, o taxista Said Kanaf critica a Arábia Saudita. "A situação já era catastrófica e isso não os impediu de impor um bloqueio total para que nós morramos de fome", lamenta.

A coalizão dirigida por Riad decidiu aumentar o bloqueio em represália por um ataque frustrado com míssil contra o aeroporto de Riad no sábado, reivindicado pelos rebeldes xiitas huthis.

Esse ato provocou uma troca de acusações entre Riad, que apoia as forças do governo iemenita desde março de 2015, e Teerã, que apoia os huthis.

- Incômodo geral -A crise provocou uma queda do valor da moeda nacional. Antes do fim de semana, 370 riais iemenitas valiam um dólar, mas esse valor subiu até os 402 riais em alguns dias, segundo casas de câmbio de Sanaa.

O preço da gasolina aumentou em 50%, o do diesel quase triplicou e os botijões de butano desapareceram, antes da volta parcial do fornecimento nesta quinta-feira após a intervenção de responsáveis rebeldes.

E o custo dos produtos básicos aumentou entre 10% e 20% em poucos dias, segundo vários habitantes.

De acordo com meios de comunicação controlados pelos huthis, a administração rebelde fechou os postos de gasolina que tinham preços excessivos e formou uma comissão para organizar a distribuição dos combustíveis, embora tenha afirmado dispor de reservas abundantes.

Apesar dessas medidas, que provocaram longas filas nos postos, os moradores observam a situação com temor. A cidade nunca teve tantos moradores de rua. Seu número quadruplicou desde o início da guerra, segundo associações de caridade.

Funcionários estão há 10 meses sem receber um salário, fazendo com que muitas pessoas tenham que procurar outro emprego.

Para diminuir o incômodo da população, a administração pagou recentemente metade dos salários que devia, apesar da falta de dinheiro.

- 'Milhões de vítimas' -A situação é ainda pior nas zonas controladas pelos rebeldes fora da capital, indicaram organizações humanitárias.

O secretário-geral adjunto de Assuntos Humanitários da ONU, Mark Lowcock, assegurou nesta quinta que se não voltarem a abrir as fronteiras do país para os envios do Iêmen, este poderia sofrer "a maior fome que o mundo viu em muitas décadas, com milhões de vítimas".

O representante sueco adjunto na ONU, Carl Skau, cujo país pediu a reunião do Conselho de Segurança desta quinta-feira, declarou que "21 milhões de pessoas precisam de ajuda humanitária urgente no Iêmen".

"É a pior situação humanitária no mundo: sete milhões de pessoas à beira da fome, uma criança morre por doença a cada 10 minutos, há quase um milhão de pessoas doentes de cólera", contou.

A guerra entre os rebeldes e as forças do presidente Abd Rabbuh Mansur Al-Hadi deixou mais de 8.650 mortos e cerca de 58.600 feridos, incluindo muitos civis, segundo a ONU.

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