Mugabe se recusa a renunciar após golpe militar no Zimbábue

Harare, 16 Nov 2017 (AFP) - O presidente Robert Mugabe rejeitou categoricamente nesta quinta-feira (16) renunciar ao poder que exerce há 37 anos no Zimbábue, após discussões com os generais que assumiram o controle da capital, Harare.

Colocado em prisão domiciliar na madrugada de quarta-feira, o chefe de Estado de 93 anos encontrou pela primeira vez esta tarde o chefe do Exército na sede da presidência em Harare, indicou à AFP uma fonte próxima dos militares.

"Reuniram-se hoje. Ele se recusou a renunciar. Acredito que está tentando ganhar tempo", declarou a fonte, que pediu para não ser identificada.

Imagens do encontro mostraram o presidente vestido de azul marinho e calça cinza ao lado do chefe do Estado-Maior, o general Constantino Chiwenga.

Dois ministros sul-africanos enviados pelo presidente Jacob Zuma também participaram da reunião, segundo um porta-voz do ministério das Relações Exteriores, que não forneceu qualquer detalhe sobre o que foi discutido.

A intervenção dos militares, que tomaram o controle dos pontos estratégicos da capital, pode por fim ao último regime africano liderado por um "pai da libertação", a geração de chefes surgido durante as lutas pela independência.

- Transição e eleições -Apesar das aparências, os generais golpistas afirmam que não têm a intenção de derrubar o governo.

"Não se trata de uma tomada do governo pelos militares. Nosso objetivo são os criminosos ao redor do presidente", declarou o general Sibusiso Moyo, porta-voz dos golpistas, em um discurso transmitido ao vivo na noite de terça pela televisão estatal.

Os "criminosos" em questão não tiveram seus nomes citados são uma alusão aos partidários da primeira-dama, Grace Mugabe, uma parcela do partido no poder, a Zanu-PF, reagrupado por trás da G40 em referência à idade da esposa do presidente detido.

Há meses a segunda esposa do "camarada Bob" não esconde sua vontade de suceder o marido.

Na semana passada, conseguiu que ele destituísse o vice-presidente Emmerson Mnangagwa, de 75 anos, um militante histórico da independência, ligado aos militares e apresentado até então como seu herdeiro político.

Até então contida, a oposição começou a sair do silêncio nesta quinta-feira para exigir a saída do chefe de Estado e uma transição por meio de eleições livres.

"No interesse do povo do Zimbábue, Robert Mugabe deve renunciar", declarou o líder do Movimento pela Mudança Democrática (MDC), Morgan Tsvangirai, durante uma coletiva de imprensa em Harare.

"Não há dúvidas que é preciso um acordo de transição que deve tratar a recuperação econômica e a reforma eleitoral", ressaltou o ex-vice-presidente Joice Mujuru, demitido em 2014, igualmente por ordem de Grace Mugabe.

Segundo analistas, os militares estão determinados a sair rapidamente da crise.

"Eles querem que Mugabe assine sua renúncia o mais rápido possível", comentou à AFP Knox Chitiyo, do centro britânico Chatham House. "Em seguida, querem um presidente de transição, que seria provavelmente Mnangagwa".

- 'Desculpas' -Sinais de que o Exército visa aos partidários de Grace Mugabe são as desculpas públicas de um de seus apoiadores.

"Peço sinceramente ao general Chiwenga que aceite minhas desculpas", declarou o líder da Liga Juvenil do Zanu-PF, Kdzai Chipanga, em mensagem lida na televisão na noite de quarta-feira. "Ainda somos jovens, aprendemos com nossos erros".

Os militares se impuseram sem oposição. Houve apenas alguns disparos na noite de terça-feira perto da residência presidencial.

No dia seguinte à intervenção militar, os moradores de Harare prosseguiam normalmente com a rotina.

A União Africana denunciou "o que parece um golpe de Estado". Também exigiu "que seja restabelecida imediatamente a ordem constitucional".

O presidente sul-africano, Jacob Zuma, fiel aliado de Mugabe, disse estar muito preocupado com a situação e enviou dois ministros de seu gabinete a Harare, em nome da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), organização regional que preside.

O bloco regional organiza, além disso, uma reunião de emergência para esta quinta em Botswana.

Reino Unido, ONU e União Europeia pediram cautela às partes e que se resolva a situação através do diálogo.

O ministro das Relações Exteriores britânico, Boris Johnson, afirmou que o Zimbábue está diante de uma mudança decisiva.

"É um momento de esperança, mas ninguém quer uma transição em que um tirano seja substituído por outro".

bur-chp/lp/pa.

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