ONU fracassa em estender investigação sobre armas químicas na Síria

Nações Unidas, Estados Unidos, 17 Nov 2017 (AFP) - O Conselho de Segurança da ONU rejeitou nesta quinta-feira dois projetos de resolução opostos - um americano e outro russo - para estender a investigação sobre o uso de armas químicas na Síria.

A Rússia vetou primeiro a proposta de Washington que buscava prorrogar a investigação para determinar os responsáveis pelos ataques químicos, e em seguida o projeto de Moscou fracassou ao obter apenas quatro votos a favor, sete contra e quatro abstenções.

Trata-se da décima vez que Moscou utiliza seu poder de veto para bloquear medidas do Conselho de Segurança contra seu aliado em Damasco.

Diante do impasse, o Japão pediu ao Conselho de Segurança que amplie por mais 30 dias a investigação sobre os ataques químicos na Síria, para dar mais tempo a um acordo que permita ampliar o trabalho dos investigadores.

A solicitação, que deve ser votada nesta sexta-feira, prevê que o secretário-geral da ONU, António Guterres, apresente em 20 dias ao Conselho "propostas sobre a estrutura e a metodologia" do painel de especialistas no terreno.

O mandato do grupo de especialistas da ONU e da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ), chamado JIM, vence nesta sexta-feira às 05H00 GMT (03H00 horário de Brasília).

O texto russo pedia a revisão da missão do JIM - composto por especialistas das Nações Unidas e da Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq) - e o congelamento de seu último relatório, que envolve o governo de Bashar al-Assad em um ataque a civis com gás sarin.

Washington era contra essa proposta e pede sanções aos responsáveis por usar armas químicas na Síria.

A proposta americana recebeu onze votos a favor, dois contra (Rússia e Bolívia) e duas abstenções (China e Egito). O voto negativo de Moscou, um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, equivale a um veto.

"A Rússia matou o mecanismo investigador que conta com um esmagador apoio deste Conselho", afirmou a embaixadora americana na ONU, Nikki Haley.

"A mensagem é clara: a Rússia aceita o uso de armas químicas na Síria", disse.

O representante britânico, Matthew Rycroft, ressaltou que a "Rússia fracassou em promover a paz na Síria" ao se negar a ser "construtivo" no debate dos textos.

Seu colega francês, Francois Delattre foi mais metafórico: "Nós soltamos um monstro", alertou.

- Além da Síria -O representante russo, Vassily Nebenzia, rejeitou todas essas críticas, denunciando especialmente a "desonestidade" do Reino Unido, que acusou de "traição". "A Rússia não podia votar no projeto americano, todo mundo sabia disso", afirmou.

A renovação do mandato do JIM alimenta há semanas uma polêmica entre Washington e Moscou, depois que o painel concluiu em outubro que o governo sírio esteve envolvido no ataque com gás sarin em 4 de abril em Khan Sheikhun que deixou mais de 80 mortos.

A Rússia considera, assim como seu aliado Damasco, que o gás encontrado procedia da explosão de um obus no solo.

Em seu projeto, a Rússia insistiu em deixar de lado as conclusões do painel sobre Khan Sheikhun para permitir outra "investigação de alta qualidade e a escala completa" a cargo do JIM, dirigido pelo guatemalteco Edmond Mulet.

Pouco mais de uma hora antes da votação, o presidente americano Donald Trump saiu do silêncio sobre o tema: "é necessário que o Conselho de Segurança da ONU renove o Mecanismo Conjunto de Investigação na Síria para assegurar que o regime de Assad jamais volte a cometer assassinatos em massa com armas químicas", tuitou.

Os Estados Unidos querem fazer do JIM "um instrumento submisso de manipulação da opinião pública", denunciou nesta quinta-feira o chefe da diplomacia russa, Sergei Lavrov.

Estados Unidos, França e Reino Unido defenderam o painel de especialistas, destacando que todo o sistema de não proliferação estabelecido pelas Nações Unidas para proibir o uso de armas químicas no mundo estava em jogo.

"O JIM não é uma ferramenta do Ocidente. É nosso bem comum e nosso melhor meio para combater o uso de armas químicas na Síria", disse o embaixador francês na ONU, François Delattre, antes da votação.

Rycroft havia alertado que se não estendessem o mandato do JIM, os membros do Conselho de Segurança "estariam dando um tiro no pé".

Desde sua criação em 2015 por iniciativa russo-americana, o JIM concluiu que as forças sírias, além do incidente em Khan Sheikhun, são responsáveis por ataques com cloro em três aldeias em 2014 e 2015, e que o EI usou gás mostarda em 2015.

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