Morte de Toto Riina traz um futuro incerto para a Cosa Nosta

Roma, 17 Nov 2017 (AFP) - Com a morte de Toto Riina, o "chefão dos chefões", encerra-se uma era para a temida Cosa Nostra. E mesmo que a organização criminosa já não seja o que era, tendo perdido protagonismo, o método mafioso com seus tentáculos se estende pela Itália e pelo mundo.

"Hoje morre o protagonista de uma época, mas a era atual, mesmo que menos barulhenta e sangrenta, não é menos perigosa, uma vez que a máfia sabe se reinventar", declarou nesta sexta-feira o ministro italiano da Justiça, Andrea Orlando, após o anúncio da morte de Toto Riina.

Apelidado de "la belva" (a fera), em razão de sua lendária crueldade, Toto Riina fez reinar o terror durante mais de vinte anos na Sicília e em toda a Itália, ordenando centenas de assassinatos, entre os mais conhecidos os dos juízes anti-máfia Giovanni Falcone e Paolo Borsellino (1992). Uma estratégica que levou ao declínio da organização criminosa.

"Riina entra para a História como aquele que destruiu a Cosa Nostra", explica o especialista em máfia Attilio Bolzoni.

"Seus massacres sangrentos que fizeram centenas, até mesmo milhares de motos, primeiro com kalashnikovs, depois bombas, trouxeram visibilidade à máfia, o que não acontecia antes", acrescentou.

Capturado e preso em janeiro de 1993 após mais de vinte anos foragido, Toto Riina organizou rapidamente sua vingança, colocando bombas em Roma, Florença e Milão.

Atentados que não foram capazes de estancar o enfraquecimento progressivo do grupo mafioso, que viu sua influência recuar frente a outras duas concorrentes, a Camorra napolitana e a 'Ndrangheta calabresa.

- Arrependidos -Durante vários anos, a sociedade criminosa também foi duramente minada por arrependidos, cujos testemunhos foram decisivos para levar à prisão vários líderes criminosos.

"Cosa Nostra é uma organização muito estruturada, semelhante a uma monarquia absolutista. Enquanto o rei está vivo, não é pensável nomear um herdeiro", explica à AFP o chefe da direção nacional anti-máfia (DNA), Maurizio De Lucia.

"Agora veremos se a morte com a Riina será seguida de um novo ímpeto, o que na minha opinião é difícil, ou se será um passo adiante para o desaparecimento da organização criminosa", acrescenta.

Entre os nomes mais citados para assumir o controle de Cosa Nostra figura o de Matteo Messina Denaro, um playboy de 55 anos da região de Trapani (leste da Sicília) e descrito como amante das roupas e dos carros de luxo.

Acusado de vários assassinatos, incluindo o de um rival de Toto Riina em 1992, está foragido há mais de 20 anos.

Mas a ausência de uma figura carismática capaz de reunir clãs rivais complica, neste momento atual, uma sucessão à cabeça do "polvo".

A morte de Riina "marca o fim de um ciclo, mas não altera muito a dinâmica dentro da Cosa Nostra", diz à AFP o procurador federal anti-máfia Giovanni Russo.

"A organização soube evoluir ao escolher deixar um pouco de lado a violência para se concentrar em ações mais lucrativas (...), como infiltrar-se nos mecanismos do Estado, o que lhe permite participar de licitações públicas, por exemplo", aponta.

O tráfico de drogas, que permitiu que o clã Corleone, liderado por Toto Riina, aumentasse sua força financeira nos anos 70 e 80, continua sendo uma importante fonte de receita para a organização criminosa.

Para Pietro Grasso, ex-procurador federal anti-máfia e atual presidente do Senado italiano, a batalha está longe de terminar.

"Toto Riina leva consigo muitos mistérios que seriam importantes de elucidar para conhecer a verdade: as alianças, as tramas políticas, cúmplices internos e externos da máfia... tantas coisas que ainda tentamos desvendar".

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