Vice-presidente destituído retorna ao Zimbábue e Mugabe se agarra ao poder

Harare, 17 Nov 2017 (AFP) - O ex-vice-presidente do Zimbábue Emmerson Mnangagwa, cuja destituição provocou um golpe militar, voltou ao país, onde seguem as negociações sobre o futuro do presidente Robert Mugabe, decidido a se manter no poder.

Horas depois, uma ampla maioria das seções do Zanu-PF, o partido no poder, pediu a Mugabe que renunciasse, informou a televisão estatal, ZBC.

O porta-voz do Zanu-PF de Midlands, Cornelius Mupereri, disse a ZBC que a seção desta província se pronunciou em "unanimidade" a favor da renúncia de Mugabe, como fizeram outras sete das 10 seções regionais.

O ex-vice-presidente Mnangagwa, considerado até pouco tempo como sucessor de Mugabe - que, aos 93 anos, é o chefe de Estado em exercício mais velho do planeta - fugiu do Zimbábue após sua destituição em 6 de novembro por "deslealdade" para com o presidente.

Na quinta-feira retornou a Harare, a capital do país, confirmou à AFP um de seus parentes, algumas horas depois de o exército deixar as ruas e liberar Mugabe, no poder há 37 anos, da prisão domiciliar.

Seu nome é um dos mais fortes para conduzir uma transição que encerraria o reinado de Mugabe.

"A melhor maneira [para o exército] de aparentar legalidade seria Mugabe reconhecer Mnangagwa como vice-presidente e depois se aposentar", explica o analista Derek Matyszak, do Instituto de Estudos de Segurança (ISS) de Pretória.

De acordo com a Constituição do Zimbábue, em caso de destituição, morte ou impedimento do presidente para exercer suas funções, seu sucessor é o vice-presidente até que haja novas eleições.

Na quinta-feira Mugabe se negou a renunciar durante uma reunião com o chefe do Estado-Maior, o general Constantino Chiwenga.

"Acho que está tentando ganhar tempo", indicou à AFP uma fonte militar.

Nesta sexta-feira, Mugabe apareceu pela primeira vez em público desde o golpe militar, um novo sinal de sua intenção de se manter no poder, ao participar de uma cerimônia de entrega de diplomas na Universidade de Harare.

Na quinta-feira, o exército afirmou estar debatendo com o presidente Mugabe "sobre a próxima etapa".

O influente chefe dos ex-combatentes da guerra da independência Christopher Mutsvangwa lançou um ultimato a Mugabe.

"Acabou o tempo (...) deve renunciar", declarou durante coletiva em Harare, na qual chamou a população a se reunir no sábado na capital em apoio aos militares.

- Golpe militar sem vítimas -Na quarta-feira de madrugada, o exército do Zimbábue tomou o controle de Harare, em uma operação sem vítimas, para apoiar Mnangagwa, transformado no principal inimigo da primeira-dama, Grace Mugabe.

Foi a ambiciosa esposa do presidente que fez Mnangagwa cair no início deste mês, uma estratégia para deixar o caminho livre para ela se tornar a sucessora de seu marido.

Os militares, que desempenharam um papel fundamental na independência do Zimbábue em 1980, anunciaram nesta sexta, sem dar nomes, a prisão de várias pessoas próximas ao presidente.

O Zanu-PF, no poder desde a independência do país em 1980, está dividido em duas facções, o "G40" (uma referência a uma geração de líderes de cerca de 40 anos), que apoiam Grace Mugabe, e a chamada facção Lacoste, fiel a Mnangagwa, apelidado de "Crocodilo".

Em Harare, a vida continua apesar do golpe militar. A circulação do trânsito era normal nesta sexta-feira e as lojas estavam abertas, indicou um jornalista da AFP, embora o exército continue bloqueando os acessos ao parlamento e ao Supremo Tribunal.

Nas ruas, muitos cidadãos esperavam que a era Mugabe acabasse logo.

"Eu o vi hoje na cerimônia com os diplomas. É um cabeça dura", lamentou Matthew Chakanetsa, um motorista de táxi de 35 anos. "Desta vez nem se importa se acabar em um banho de sangue, ele é realmente irritante".

Os eleitores também continuavam a se registrar para votar nas eleições presidenciais e legislativas de 2018, às quais Mugabe se apresentará.

O secretário de Estado americano, Rex Tillerson, considerou nesta sexta-feira que o povo do Zimbábue deve poder "escolher seu governo".

"O Zimbábue tem a oportunidade de tomar um novo caminho, um caminho que deve incluir eleições democráticas e o respeito aos direitos humanos", assinalou.

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