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Internacional

Papa Francisco chega a Mianmar para visita inédita

27/11/2017 13h52

Yangon, 27 Nov 2017 (AFP) - Recebido por milhares de birmaneses com as tradicionais roupas brancas, o papa Francisco começou nesta segunda-feira (27), em Mianmar, uma visita muito delicada a esse país de maioria budista, iniciada pelo encontro com o chefe do Exército, general Min Aung Hlaing.

A primeira audiência do papa no país aconteceu no fim da tarde, um encontro acertado de última hora na casa do general Aung Hlaing. Nele, o militar disse a Francisco que "não há, de jeito nenhum, discriminação religiosa" no país.

"Do mesmo modo, nosso Exército também... age pela paz e pela estabilidade do país", de acordo com post de sua equipe no Facebook.

Na terça-feira, o papa se reúne com a líder civil e Prêmio Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi.

A reputação de Aung San Suu Kyi em nível internacional ficou arranhada pela falta de empatia em relação aos rohingyas. Desde o fim de agosto, quase 620 mil deles fugiram do estado de Rakhine (oeste de Mianmar), onde o Exército executou uma dura campanha de repressão chamada de "limpeza étnica" pela ONU.

As organizações de defesa dos direitos humanos acusam o general Min Aung Hlaing de ser o principal responsável por essa campanha de repressão.

Na semana passada, Mianmar e Bangladesh anunciaram um acordo para o retorno de refugiados rohingyas, mas o chefe do Exército se declarou contrário a uma volta em massa.

O encontro entre o papa e o general - "de cortesia", segundo o Vaticano - durou apenas 15 minutos.

"Falaram da grande responsabilidade das autoridades do país nesse período de transição", limitou-se a declarar a Santa Sé.

- Acreditar na paz -O sumo pontífice sabe que suas palavras sobre os rohingyas serão cuidadosamente analisadas em um país que registra uma forte tensão religiosa. Nos últimos meses, Francisco não hesitou em denunciar o tratamento recebido por aqueles que chama de "irmãos rohingyas", sob risco de irritar a maioria budista do país.

Com um forte sentimento nacionalista budista e amplamente contrária aos muçulmanos, a opinião pública birmanesa está indignada com os questionamentos da comunidade internacional sobre a maneira como o governo administra o conflito.

Ainda assim, muitos católicos chegaram de todos os cantos do país, levando bandeiras birmanesas e do Vaticano nas mãos, na esperança de ver o sumo pontífice. Os católicos representam pouco mais de 1% da população desse país asiático.

"Acreditamos que o papa trará com ele a paz para nosso país", disse à AFP Hla Rein, que chegou a Yangun de trem, após uma longa viagem procedente do estado de Kachin, e pretende assistir à grande missa na quarta-feira.

Os quase 700.000 católicos de Mianmar - pouco mais de 1% dos 51 milhões de habitantes do país - têm muitas expectativas com a visita papal.

O papa dá uma grande importância ao desenvolvimento do catolicismo na Ásia, onde apenas 3% da população pertence a esta confissão, em pleno crescimento na região (+9% entre 2010 e 2015). Francisco já visitou Coreia do Sul, Sri Lanka e Filipinas.

- Êxodo -Essa viagem traz esperança entre os refugiados rohingyas, os quais denunciam, de Bangladesh, estupros, torturas e assassinatos praticados pelo Exército birmanês.

Em sua 21ª viagem, o pontífice também visitará Bangladesh, outro país com grandes tensões religiosas para o qual muitos rohingyas emigraram, fugindo da violência.

Nur Mohammad, um imã de 45 anos em um campo de refugiados em Cox's Bazar, em Bangladesh, espera que o papa peça o retorno dos rohingyas "com a cidadania e com o fim de todas as discriminações".

Antes da explosão de violência em agosto, quase um milhão de muçulmanos rohingyas viviam em Mianmar, muitos deles há várias gerações. Desde uma lei aprovada em 1982, porém, essa minoria não possui a nacionalidade birmanesa e constitui a maior população apátrida do mundo.

A margem de manobra do papa é pequena, porém, já que "a grande maioria das pessoas em Mianmar não acredita no discurso internacional dos abusos contra os rohingyas, nem no êxodo de um grande número de refugiados a Bangladesh", explicou Richard Horsey, um analista independente que mora em Mianmar.

"Se o papa vier e tratar o assunto de forma insistente, vai aumentar as tensões", completou.

A dúvida é saber se, neste contexto, ele evitará pronunciar o termo "rohingya", tabu em Mianmar, como recomenda a Igreja local, temerosa de que isto possa despertar a ira dos extremistas budistas.

Francisco é o primeiro pontífice a visitar Mianmar, onde as autoridades esperam 200.000 pessoas em uma missa ao ar livre na quarta-feira (29), em Yangun.

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