Rússia tem primeiro abrigo para jovens LGBT

Moscou, 28 Nov 2017 (AFP) - Nicole foi obrigado a passar nove meses trancado em casa quando seus pais ficaram sabendo que ele queria ser mulher, mas conseguiu fugir, e encontrou abrigo no primeiro abrigo para homossexuais e transexuais da Rússia.

"Quando cheguei aqui não aguentava ficar em pé, meus músculos estavam atrofiados", conta à AFP. "Lutava contra mim, contra meu eu interior, contra minha aparência".

Nicole escolheu este nome feminino, mas fala de si no masculino. Toma hormônios femininos e se submeteu a uma operação de extirpação dos testículos.

É um dos residentes do primeiro refúgio para jovens LGBT (lésbicas, gays, transexuais e bissexuais) na Rússia, onde a homofobia é expressada abertamente, sobretudo desde a adoção, em 2013, de uma lei contra a "propaganda" homossexual dirigida a menores de idade.

Este centro se encontra em um complexo sob segurança nos arredores de Moscou e tem capacidade para acolher 14 pessoas.

Abriu suas portas em abril de 2016 para receber homossexuais procedentes da Chechênia, pouco depois do jornal de oposição Novaïa Gazeta revelar as perseguições contra os gays nesta república russa do Cáucaso, muito conservadora, que provocaram indignação internacional.

Desde outubro, o local acolhe "todos os LGBT que sofrem", os que foram rejeitados por suas famílias, perderam o emprego, ou sofreram agressões, explica Olga Baranova, a diretora do Moscow Community Center, o grupo de apoio que o administra.

- 'Uma nova vida' -Seus residentes vêm de toda a Rússia, e no caso de Nicole, do Azerbaijão, uma ex-república soviética do Cáucaso.

Nicole conta que sua família o trancou em seu apartamento quando ele quis deixar o cabelo crescer e tomar hormônios femininos. Foram longos meses em um sofá, atormentado por ideias suicidas.

Seus pais acabaram cedendo e o ajudaram a comprar uma passagem para a Rússia, mas com uma advertência: se voltasse, eles o matariam - e se matariam.

Nicole quer viver na Holanda. "Ainda tenho que passar por várias operações, quero construir uma nova vida e obter documentos de identidade novos. Aqui não é possível".

Outro residente do refúgio, Grigori Chibirov, vem de Vladikavkaz, na Ossétia do Norte, no Cáucaso russo.

"Me sinto em segurança (neste abrigo), com gente como eu. Todos são simpáticos e apoiamos uns aos outros", explica o jovem de 22 anos, loiro e com as unhas pintadas de azul.

Ele conta que foi embora da sua região porque seus pais e irmãos tinham vergonha dele. "Não posso viver lá por quem eu sou", diz.

Grigori lembra ter sofrido assédio desde criança. Sua família o obrigou a raspar o cabelo quando ele o descoloriu. Foi despedido de vários trabalhos e insultado nas ruas.

- 'Uma segunda família' -Grigori espera se mudar para a França e trabalhar no setor de moda.

Sobre a tolerância na Rússia, é pessimista. "Talvez dentro de 50 ou 100 anos? Mas é pouco provável enquanto (Vladimir) Putin estiver no poder", estima, citando a lei sobre a "propaganda" da homossexualidade, símbolo dos "valores tradicionais" defendidos pelas autoridades.

Quase nenhuma personalidade pública expressa sua homossexualidade na Rússia, e a polícia proíbe manifestações como a Parada Gay.

O refúgio permite que os residentes fiquem por seis semanas, em quartos de duas ou três camas. Eles recebem comida, conselhos e assessoramento jurídico.

Há um mês, recebeu 37 solicitações. O centro dá prioridade aos projetos realistas e tenta ajudar os demais. A maioria dos residentes é de homens homossexuais, mas também há transexuais e mulheres.

Uma transexual de 31 anos, Nika, quer ir à França para ser operada. Ela também é do Cáucaso e está encantada com o centro. O abrigo "nos proporciona um teto e segurança. Ganhei uma segunda família aqui".

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