Ex-conselheiro de Trump se declara culpado de mentir sobre contatos com Rússia

Washington, 1 dez 2017 (AFP) - O general reformado Michael Flynn, ex-conselheiro de Segurança Nacional do presidente Donald Trump que nesta sexta-feira (1) se declarou culpado de ter mentido para o FBI sobre seus contatos com funcionários russos, aceitou colaborar com a Justiça.

"Meu gesto de me declarar culpado e meu acordo para cooperar com o escritório do procurador especial são reflexo de uma decisão tomada em defesa dos interesses de minha família e de meu país", declarou o ex-conselheiro em uma nota oficial.

O general disse que foi "extraordinariamente doloroso" enfrentar durante vários meses a acusação de traição e disse que "essas falsas acusações são contrárias a tudo que fez e defende".

"Mas reconheço que as ações que admito hoje no tribunal foram equivocadas e, pela minha fé em Deus, estou trabalhando para fazer o que é correto", alegou.

"Aceito a responsabilidade plena por meus atos", concluiu.

Flynn, de 58 anos, foi acusado de prestar "falso testemunho em um assunto sob jurisdição de um setor do Poder Executivo do governo dos Estados Unidos", informou o Departamento de Justiça em um breve comunicado oficial.

A admissão de culpa de Flynn é consequência da investigação conduzida pelo procurador especial independente Robert Mueller sobre o eventual conluio entre o comitê de campanha de Trump e funcionários russos durante a eleição presidencial de 2016.

Em dezembro do ano passado, quando já havia sido escolhido por Trump para ser conselheiro de Segurança Nacional do governo em formação, Flynn manteve contatos com o então embaixador da Rússia em Washington, Sergei Kislyak.

Nessa conversa, Flynn discutiu com Kislyak a necessidade de evitar uma escalada de tensões entre Washington e Moscou, visando às sanções que o governo de Barack Obama impunha naquele momento à Rússia.

De acordo com as acusações apresentadas pelo procurador especial, os contatos do general Flynn com o diplomata russo foram acertados com integrantes de alto nível da equipe de transição de governo.

Flynn consultou "altos funcionários" da equipe que conduzia a transição para o novo governo antes e depois de ter várias conversas com Kislyak, revela o documento publicado hoje pelo Departamento de Justiça.

O falso testemunho do ex-conselheiro de Segurança Nacional também dificultou a investigação sobre caso, de acordo com o mesmo documento.

"O falso testemunho de Flynn e suas omissões dificultaram e tiveram um impacto material na investigação do FBI sobre a existência de ligações, ou de coordenações", entre a equipe de campanha de Trump e Moscou.

A Casa Branca afirmou, por sua vez, que a admissão de culpa de Michael Flynn não afeta ninguém além do próprio general.

"Nada na admissão de culpa, ou nas acusações, envolve ninguém mais que o senhor Flynn", destacou o advogado da Casa Branca Ty Cobb em uma nota, na qual também se referiu ao general de três estrelas como "um ex-funcionário do governo Obama".

- Polêmica discussão -Flynn não informou Trump nem o vice-presidente Mike Pence sobre esse contato, ao assumir seu cargo na Casa Branca.

Quase imediatamente, o Departamento de Justiça alertou a Casa Branca que a continuidade de Flynn em seu cargo o expunha a chantagens por ocultar informações sobre seus contatos com Kislyak.

Apenas dez dias depois de assumir o cargo de conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, Flynn já era um problema grave para o governo de Trump e sempre foi visto isolado no gabinete.

Assim, o general reformado durou apenas 20 dias em seu cargo e, quando se tornou público que omitiu informações, foi demitido.

De qualquer forma, ao ser interrogado pelos agentes do FBI e do Departamento de Justiça, Flynn "voluntária e conscientemente" ofereceu informações falsas.

Depois de deixar o cargo, Flynn apresentou documentos, nos quais admitia que sua empresa de consultoria recebeu pagamentos para fazer lobby a favor do governo da Turquia.

Outras pessoas próximas a Trump durante a campanha eleitoral também já foram atingidas pelo escândalo.

- Extensa investigação -O milionário advogado Paul Manafort, que chegou a ser o presidente do comitê de campanha de Trump, e seu auxiliar Rick Gates foram acusados de conspirar para lavar dinheiro proveniente de governos estrangeiros, em especial da Ucrânia.

O operador político Georges Papadopoulos já se declarou culpado de ter tido reuniões com funcionários russos para tentar minar a campanha da candidata democrata Hillary Clinton e de ter mentido para as autoridades sobre isso.

As suspeitas sobre os contatos entre a equipe de Trump e a Rússia durante a campanha e imediatamente depois de sua vitória eleitoral provocaram verdadeiros terremotos políticos no novo governo.

Em janeiro, os principais chefes de Inteligência do país disseram ter evidências fortes de que Moscou interferiu na campanha por meio de ciberataques e operações de desinformação, a fim de aumentar as chances de vitória de Trump.

O presidente americano rejeitou esta possibilidade repetidas vezes.

"Desde o primeiro dia que eu assumi o cargo, tudo o que ouvi foi a falsa desculpa democrata por perder a eleição. Rússia, Rússia e Rússia", tuitou na semana passada.

A nomeação do procurador especial Mueller se deu porque o secretário de Justiça, Jeff Sessions, teve de se recusar a fazer qualquer investigação sobre o caso, já que também manteve contatos não divulgados com diplomatas russos.

Posteriormente, Trump forçou a renúncia do então diretor do FBI, James Comey, por considerar que permitiu que as investigações se concentrassem em Flynn.

Ao invés de fazer que as investigações deixassem Flynn em paz, Comey denunciou seus assessores imediatos, o que foi considerado como uma pressão indevida por parte da Casa Branca, e isso selou seu próprio destino.

Segundo a imprensa americana, Mueller solicitou à Casa Branca a entrega de uma extensa lista de documentos, incluindo detalhes referentes às discussões internas que levaram à destituição de Comey.

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