Toque de recolher freia violência em Honduras; oposição busca acelerar apuração dos votos

Tegucigalpa, 2 dez 2017 (AFP) - A oposição de esquerda em Honduras tentava neste sábado chegar a um acordo com o tribunal eleitoral para acelerar a apuração dos votos das eleições do último domingo, enquanto o toque de recolher decretado pelo governo conteve os protestos.

Juan Orlando Hernández, que lidera a apuração oficial por uma margem estreita após se candidatar a uma questionada reeleição, impôs nesta sexta-feira o estado de sítio, com toque de recolher noturno de 10 dias, o que obrigou os manifestantes a se recolherem para evitar a prisão.

Uma jovem identificada como Kimberly Dayana Fonseca, de 19 anos, foi morta, segundo seu pai, Carlos Fonseca, por policiais militares que atacaram um grupo de manifestantes quando ela procurava seu tio na colônia Villanueva, leste da capital.

Agentes da "Polícia Militar saíram de um arbusto atirando e a mataram com um tiro na cabeça", disse Luisa, irmã de Kimberly.

O candidato da Aliança de Oposição, Salvador Nasralla, condenou no Twitter a repressão do governo contra os manifestantes que reivindicam a vitória nas eleições de domingo (26).

"Condeno a repressão e morte que o povo hondurenho está sofrendo pelo golpe de Estado dado pelo presidente, candidato ilegal à reeleição e chefe das forças armadas, Juan Orlando Hernández, que perdeu as eleições em Honduras no domingo", escreveu Nasralla.

A capital amanheceu neste sábado suja por restos de barricadas, pedras que os manifestantes lançaram contra a polícia e muros pichados com as frases "Fora JOH!" e "JOH fraudulento!".

"Fora ditador!" e "Quatro anos mais jamais!" se lia em alguns muros após o fim do toque de recolher de 12 horas.

O líder da Aliança de Oposição contra a Ditadura, o ex-presidente Manuel Zelaya, recomendou ao Superior Tribunal Eleitoral (TSE) revisar 5.174 atas sobre as quais restam dúvidas devido a uma série de interrupções suspeitas do sistema de transmissão dos resultados registradas na última quarta-feira.

O presidente do TSE, David Matamoros, convocou Zelaya e o candidato da Aliança, Nasralla, a revisarem apenas 1.006 atas com inconsistência no número de votos ou por falta de assinatura dos delegados das mesas de votação.

O chefe de campanha da Aliança, Marlon Ochoa, lamentou que ainda se continuasse buscando um acordo com o TSE para tornar o processo transparente.

Indicou, ainda, que as porcentagens de votação nos três departamentos ocidentais se situam entre 70% e 75% dos eleitores dessa região, o que leva a suspeitar que a média nacional seja de entre 50% e 55%.

O presidente Hernández, candidato à reeleição pelo direitista Partido Nacional (PN), pediu ao TSE que se limite a conferir apenas as atas inconsistentes.

Hernández, 49 anos, busca o segundo mandato amparado por uma decisão da Justiça, apesar de a Constituição proibir a reeleição em Honduras.

Com 94,31% dos votos apurados, Hernández liderava com 42,92%, contra 41,42% de Nasralla, um apresentador de TV de 64 anos.

- Oposição questiona cifras -A aliança opositora questionou as cifras porque a primeira contagem dos votos dava a Nasralla cinco pontos de vantagem com 57% dos votos apurados. Em seguida, o sistema de informática sofreu interrupções frequentes, uma delas de cinco horas, e, a partir de então, a apuração favoreceu o presidente Hernández.

Os dirigentes da Aliança, que denunciaram meses antes o favorecimento do governante pelo TSE, denunciaram o "roubo" de sua vitória.

A oposição e analistas haviam advertido sobre um eventual conflito devido à falta de credibilidade do TSE, que acusam de ser controlado por Hernández.

O tribunal eleitoral é formado por três juízes titulares e um suplente. Este último, Marco Ramiro Lobo, havia advertido que a diferença de cinco pontos para Nasralla era irreversível, por se tratarem de 57% dos votos, o que acendeu a chama do conflito.

- Saques e incêndios -"É fundamental não continuar atrasando a apuração de que o país precisa", disse Hernández na noite de ontem, após uma reunião com membros das delegações de observadores da União Europeia (UE) e Organização de Estados Americanos (OEA), que buscam uma saída para o conflito.

"Olhem o que está acontecendo em todo o país por causa desses atos de vandalismo, incêndios, saques, isso não é justo", disse Hernández.

Os resultados eleitorais em favor de Hernández resultaram em uma onda de protestos violentos em várias regiões, com barricadas e saques, e policiais e militares lançando bombas de gás.

Hernández já era questionado porque a reeleição é proibida pela Constituição, mas conseguiu se candidatar depois que a Seção Constitucional da Suprema Corte, com juízes nomeados por ele, o habilitou.

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