Honduras retoma contagem de votos; oposição protesta por 'fraude'

Tegucigalpa, 4 dez 2017 (AFP) - O tribunal eleitoral de Honduras retomou neste domingo a contagem de votos e a revisão das atas com irregularidades, sem chegar a um acordo com a oposição, para definir o vencedor das eleições da semana passada que foram disputadas entre o atual presidente, Juan Orlando Hernández, e o opositor Salvador Nasralla.

O presidente do Superior Tribunal Eleitoral (TSE), David Matamoros, anunciou o reinício da revisão de atas que continham inconsistências, enquanto milhares de manifestantes da oposição saíram às ruas de Tegucigalpa para denunciar o que qualificam de fraude nas eleições realizadas no domingo 26 de novembro.

A revisão parcial das atas foi suspensa na quinta-feira, quando, com 94,35% dos votos apurados, o TSE informou que o presidente Hernández, que concorria pelo direitista Partido Nacional, liderava com 42,92%, contra 41,42% de Nasralla, apoiado pela esquerdista Aliança de Oposição contra a Ditadura.

Enquanto se anunciava a retomada da apuração, dezenas de milhares de hondurenhos "indignados" se reuniam a três quarteirões do local onde o TSE revisa as atas, bloqueados por um grande número de policiais e militares antidistúrbios.

"Fora JOH, Fora JOH! (iniciais de Hernández)", repetiam os manifestantes, ao som de vuvuzelas e panelas batendo.

"Esse presidente é uma fraude. Estamos fartos, não queremos uma ditadura. Instituições internacionais, ponham seus olhos em Honduras", afirmou um jovem que cobria seu rosto com um pano.

Matamoros detalhou que o tribunal revisaria 1.006 atas que apresentam inconsistências, apesar da aliança opositora exigir a revisão de 5.173 atas por suspeitas de fraude.

"Sentimos que o povo hondurenho merece os resultados e esta (contagem) não pode ficar parada", afirmou o presidente do TSE ao anunciar o reinício da apuração.

O organismo esperou em vão que os dirigentes da esquerdista aliança opositora se reunissem com eles para chegar a um acordo, mas seus dirigentes não se apresentaram por discordar do TSE em relação ao número de atas que deviam ser revisadas.

"Por que não (revisar) as 5.173 atas? Não querem revisar as 5.173", disse à AFP o ex-presidente Manuel Zelaya, coordenador da Aliança e líder da esquerda hondurenha.

- Suspeitas de irregularidades -A OEA apoiou a petição dos opositores ao indicar em um comunicado que "as petições que a oposição colocou em relação à revisão das 5.200 atas que não fizeram parte das transmitidas na noite da eleição são atendíveis".

"Quem sai eleito desta forma ilegal não poderia governar um povo. (...) Ninguém deve obediência a um governo usurpador, como diz a Constituição", advertiu Zelaya.

O ex-presidente considera que há 5.173 atas suspeitas porque foram transmitidas de forma irregular e permitiram inverter o resultado, depois de que uma primeira contagem, com 57% dos votos apurados, dava a Nasralla uma vantagem de cinco pontos sobre Hernández.

Esse primeiro resultado parcial foi divulgado na madrugada de segunda-feira, 10 horas depois do fechamento dos centros de votação.

No entanto, quando os números começaram a ser atualizados na terça-feira, a vantagem foi caindo, e Hernández passou a liderar a apuração, após uma série de interrupções no sistema de informática do TSE, uma delas de cinco horas de duração.

Tal situação provocou acusações de fraude e protestos violentos em todo o país, com saques de comércios.

As suspeitas de fraude foram estimuladas pelo fato de que Hernández se candidatou a um novo mandato amparado em uma questionada decisão judicial, apesar da Constituição hondurenha proibir a reeleição.

- "Desobediência civil" -"Haveria uma escalada de desobediência civil, eu não ia querer governar com uma rejeição de 70% das pessoas, que estão nas ruas, não se poderia estabelecer um governo nessas condições", expressou Zelaya.

Os protestos que surgiram na quarta-feira com barricadas de pneus incendiados em todo o país e saques em comércios nas principais cidades foram contidos com o anúncio de um estado de sítio, com toque de recolher noturno, decretado na sexta-feira por Hernández.

Ao menos uma jovem morreu e dezenas de pessoas ficaram feridas em meio a confrontos entre manifestantes e policiais, que usaram bombas de gás. A procuradoria e a polícia estão investigando de forma "exaustiva" a morte da jovem para estabelecer os culpados.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos e o escritório da ONU para os Direitos Humanos em Honduras pediram, neste domingo, às autoridades que garantam o respeito à vida humana, no contexto da violência pós-eleitoral.

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