Escândalo de doping complica ambição esportiva de Putin

Moscou, 4 dez 2017 (AFP) - Uma exclusão da Rússia nos próximos Jogos Olímpicos de Inverno devido ao escândalo de doping complicaria o sonho de Vladimir Putin de recolocar seu país como uma potência esportiva, mas, ao mesmo tempo, lhe daria uma arma retórica contra os ocidentais.

O Comitê Olímpico Internacional (COI) se reúne nesta terça-feira para decidir sobre a participação ou não dos atletas russos nessas olimpíadas de inverno, que serão realizadas em fevereiro na cidade sul-coreana de Pyongchang.

Uma exclusão seria uma humilhante derrota para a Rússia, que investiu bilhões de dólares para organizar em 2014 os Jogos Olímpicos mais caros da história em Sochi. O país anfitrião terminou inclusive no alto do pódio de medalhas, antes dos casos de doping alterarem alguns resultados.

Esta "humilhação", como chamou Vladimir Putin a eventual exclusão, chegaria meses antes da Rússia sediar a maior competição esportiva do planeta: a Copa do Mundo de futebol, que viu o sorteio dos grupos ser realizado na última sexta-feira, no Kremlin.

"O esporte é um maná imenso em termos de midiatização e de política, e Sochi foi essencial para a imagem do país", lembrou Serguei Medveded, professor da Escola Superior de Economia de Moscou, que acredita que a Rússia organizou um sistema de doping para garantir a vitória nos Jogos.

"Logo em seguida aconteceu o escândalo mais sonoro da história do movimento olímpico", completou. "É um golpe muito duro para o esporte russo".

Desde a publicação em 2016 do relatório McLaren, encomendado pela Agência Mundial Antidoping (Wada) e que revelou um esquema de doping institucional na Rússia, o país viu retirado um terço de suas medalhas (11 de 33), incluindo quatro ouros.

Moscou sempre negou a dimensão institucional do sistema revelado pela investigação e acusa o ex-diretor do laboratório antidoping Grigori Rodchenkov de ter dopado os atletas sem consentimento. Rodchenkov é responsável pelas primeiras revelações sobre o sistema de doping e fugiu para os Estados Unidos.

- 'Guerra contra todos' -Alguns observadores opinam que, apesar do golpe a nível esportivo, uma ausência russa em Pyeongchang alimentaria no Kremlin uma retórica antiocidental.

Na sexta-feira, o vice-primeiro-ministro russo, Vitali Mutko, declarou que as acusações de doping contra a Rússia tem como objetivo colocar o país num "eixo do mal" para transformá-lo "numa espécie de monstro".

Em novembro, Putin declarou que as acusações de doping foram orquestradas pelos Estados Unidos para prejudicar o bom desenvolvimento da eleição presidencial de março de 2018 na Rússia.

Para Medvedev, "o que acontece é uma nova prova para o Kremlin de que a Rússia está em guerra com todos".

Mas uma exclusão dos atletas russos poderia, segundo os analistas, beneficiar a popularidade de Vladimir Putin, como já ocorreu após as punições contra a Rússia pela anexação da Crimeia, em março de 2014.

Várias emissoras de televisão públicas russas ameaçam não retransmitir os Jogos de Pyeongchang caso os atletas russos sejam excluídos da competição.

"Por que precisamos dos Jogos Olímpicos? Eles foram um fator de união nos últimos tempos? Promovem a paz no mundo?", questionou o colunista do jornal Soviestki Sport Dimitri Ponomarenko.

"O esporte profissional está agora, a meu entender, estreitamente vinculado aos jogos políticos, aos fraudes, às malfeitorias, às mentiras e outas sujeiras", completou.

Os russos preferem se concentrar na Copa do Mundo, que será disputada entre 14 de junho e 15 de julho de 2018 e que pode voltar a dar credibilidade esportiva ao país.

"Nosso país espera com impaciência o campeonato", declarou na sexta-feira durante a cerimônia do sorteio dos grupos o presidente Putin, que prometeu "uma grande festa" esportiva.

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