Decisão de Trump sobre Jerusalém afetará esforços dos EUA pela paz

Washington, 6 dez 2017 (AFP) - A decisão de Donald Trump de reconhecer Jerusalém como capital de Israel desestimulará os árduos esforços de seu conselheiro e genro, Jared Kushner, para chegar a um acordo de paz entre israelenses e palestinos, avaliaram analistas.

Revertendo uma política americana implementada há sete décadas e, apesar das advertências de seus aliados árabes e europeus, o presidente anunciou sua decisão nesta quarta-feira na Casa Branca, considerando este passo uma "condição necessária para conseguir paz".

A declaração, que recebeu forte condenação regional, põe fim à ambiguidade diplomática sobre o estatuto de uma cidade que abriga os lugares sagrados das três grandes religiões monoteístas, e é igualmente reivindicada por israelenses e palestinos.

Os palestinos reagiram, afirmando que Washington não pode mais aspirar a um papel de mediador.

A medida "mina seus próprios esforços de paz", lamentou Ilan Goldenberg, do Center for a New American Security.

"No melhor dos casos, fará explodir em pleno voo a mediação americana" e "no pior, provocará distúrbios generalizados, maiores", avaliou o analista à AFP, convencido de que os mediadores da Casa Branca eram favoráveis a essa decisão neste momento.

- Aliança israelense-saudita -Trump, que não para de se vangloriar de suas qualidades de negociador, se declara paralelamente decidido a relançar o moribundo processo de paz e até disposto a chegar ao "acordo final". Para isso, formou uma pequena equipe em torno de seu genro Jared Kushner, que multiplica seus contatos há meses.

Na quarta-feira, Trump confirmou seu "compromisso para facilitar uma paz duradoura", afirmando que o status final de Jerusalém dependerá das negociações com os palestinos, que reivindicam a parte oriental da cidade como capital do Estado ao qual aspiram.

A declaração que não convence diplomatas e observadores em Washington, que já eram céticos sobre as probabilidades de sucesso do governo americano. Agora, em sua maioria, acreditam que elas foram reduzidas a zero.

Goldenberg afirma que Trump deveria ter feito um anúncio "no contexto de uma proposta global de paz", e se equivoca, assim, quem pensa que a decisão pode ser relativizada pelo tímido apoio à solução de "dois Estados", Israel e Palestina coexistindo lado a lado.

Esse plano não estará sobre a mesa até o começo de 2018, explicou uma fonte diplomática.

"Tudo isso é a confirmação de que, desde o começo, se trata de uma ilusão", explica Barbara Slavin, do grupo de reflexão Atlantic Council. As gestões diplomáticas de Jared Kushner são "uma fachada para que a Arábia Saudita possa justificar sua aproximação com Israel contra o Irã", afirma.

Por enquanto, a estratégia americana é favorecer uma aliança israelense-saudita contra o inimigo comum, Teerã.

Na dinâmica regional "florescem as oportunidades", declarou Kusher, de 36 anos, durante uma de suas escassas intervenções públicas, dias atrás.

Os países do Oriente Médio "estudam as ameaças regionais e acho que veem que Israel, seu inimigo tradicional, se tornou de fato um aliado natural para eles", acrescentou o jovem conselheiro presidencial, que forjou a estreita relação com o príncipe herdeiro saudita, Mohamed ben Salman.

- Movimentos tectônicos -Na realidade "houve uma mudança de tom" entre os dois aliados de Washington, estima Elliott Abrams, membro do Council on Foreign Relations "embora ainda não haja uma mudança oficial".

Um diplomata próximo ao caso afirmou que existem "movimentos tectônicos" no "novo Oriente Médio" e as aproximações "devem permanecer nos bastidores, porque o que se diga publicamente pode ser usado contra Israel ou Arábia Saudita".

O governo Trump está convencido de que a ascensão do poderoso príncipe herdeiro marca uma mudança. Salman convocou recentemente ao presidente palestino Mahmud Abbas a Riad para pressioná-lo a fim de aceitar a retomada das negociações de paz com Israel, apontou Barbara Slavin.

Ao mesmo tempo, o rei Salman da Arábia Saudita alertou pessoalmente Trump sobre o traslado da embaixada, qualificando-o como "uma iniciativa perigosa" que poderá provocar "a fúria dos muçulmanos".

Washington arrisca alinhar-se a seu principal aliado na região? "Os governos árabes devem expressar sua preocupação ante sua opinião pública", mas isso não mudará fundamentalmente suas novas relações com Israel, minimizou Abrams.

Por outro lado, se as condenações árabes são percebidas como "hipócritas", "Teerã aparecerá novamente como o verdadeiro defensor da causa palestina", adverte Slavin. "Isso fortalecerá o Irã, quando a aliança com a Arábia Saudita tem como objetivo debilitá-lo".

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Newsletter UOL

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos