O auge da extrema direita na Europa

Viena, 26 dez 2017 (AFP) - A extrema direita ganha terreno na Europa desde o ano 2000. Mas em 2017 várias eleições importantes confirmaram a tendência em França, Alemanha, Áustria e Holanda. O sucesso dos partidos populistas, eurocéticos e anti-imigração acelera a recomposição do panorama político, mas gera também rachas dentro desses partidos.

Sucessos eleitoraisOs partidos de extrema direita tiveram resultados históricos este ano, mas não conquistaram uma vitória nacional. "A extrema direita na Europa é hoje mais popular do que nunca, desde 1945", assegura o pesquisador holandês Cas Mudde, professor associado da universidade da Geórgia (EUA).

O Partido da Liberdade (PVV), de Geert Wilders, se tornou em março a segunda força do Parlamento holandês, atrás dos liberais, com 20 assentos de um total de 150.

Na França, a presidente do Frente Nacional, Marine Le Pen, chegou ao segundo turno das eleições presidenciais de maio.

Na Alemanha, o Alternativa para Alemanha (AfD) obteve um sucesso sem precedentes ao entrar na Câmara Baixa com 12,6% dos votos. Quatro anos antes havia obtido somente 4,7%.

O FPÖ austríaco, decano dos partidos de extrema direita do pós-guerra, obteve um resultado próximo ao recorde nas legislativas de outubro, com 26% dos votos, e governará em coalizão com os conservadores.

Na Itália e na Suécia, que celebrarão eleições legislativas em 2018, a extrema direita também poderá conseguir bons resultados.

O papel da imigração"Cada país conta uma historia distinta mas, por trás do sucesso das direitas radicais, sempre se encontra a noção de insegurança, real ou percebida, vinculada aos fluxos migratórios, ao terrorismo e à incerteza econômica", aponta Mabel Berezin, professora de sociologia na Universidade de Cornell, nos EUA.

O auge da extrema-direita em países prósperos como Alemanha e Áustria confirma "as análises que mostram há décadas que a imigração é uma preocupação-chave" do eleitorado ultradireitista, explica Mudde.

A AfD e o Partido da Liberdade (FPÖ) da Áustria conquistaram seus bons resultados nos dois dos países europeus que mais receberam migrantes desde 2015, alimentando o debate sobre o custo das ajudas e a capacidade de integração dos refugiados.

A presença de imigrantes não é o único fator que determina os resultados da extrema-direita, que também tira proveito do descontentamento em relação aos partidos tradicionais e às elites políticas, econômicas e culturais.

Cenário transformadoOs demais partidos, especialmente os conservadores, se veem obrigados a adaptar sua estratégia e não sabem se rejeitam, imitam ou cooperam com a ultra-direita.

A decisão do jovem conservador austríaco Sebastian Kurz, de 31 anos, de competir contra o FPÖ em temas como a imigração, o lugar do Islã na sociedade e a segurança levou os dois partidos a firmar um acordo de coalizão.

"Kurz foi muito longe em sua aproximação ideológica com o FPÖ, uma estratégia que pode funcionar se não liquidar totalmente a identidade de seu partido", advertiu o cientista político austríaco Thomas Hofer.

Na Bulgária, o partido de centro-direita do primeiro-ministro Boiko Borisov governa desde março com uma coalizão de partidos nacionalistas.

Na Hungria, a postura cada vez mais xenófoba do conservador Viktor Orban permite ao partido extremista Jobbik, que moderou seu discurso, apresentar-se agora como a principal alternativa ao dirigente.

Na França, os partidos tradicionais descartam alianças com a extrema-direita, assim como Alemanha e Holanda. A direita francesa acaba de eleger Laurent Wauquiez, acusado de concentrar-se nos mesmos temas que o Frente Nacional.

Para Cas Mudde, os partidos tradicionais que tentem imitar a extrema-direita só conquistarão "sucessos de curto prazo" porque subestimam o sentimento antissistema desse eleitorado.

Administrar o sucessoOs conflitos no interior do Frente Nacional e da AfD desde seus bons resultados eleitorais ilustram a dificuldade para aparcar de forma duradoura as divergências internas que podem ser profundas, relacionadas com distintas tendências ideológicas ou rivalidades individuais.

O ano 2017 também foi o de deterioração do partido populista e eurofóbico dos Verdadeiros Finlandeses, castigado pelo exercício do poder desde 2015 dentro de uma coalizão com os centristas e os conservadores.

"A posição de aliado minoritário sempre é a mais incômoda", disse Thomas Hofer.

O FPÖ demorou a fechar as feridas provocadas por sua primeira coalizão com os conservadores entre 2000 e 2007.

Para Hofer, "partidos como o FPÖ têm um DNA de opositor, que não é simples converter em uma atitude de governo".

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