Austeridade como verdadeira causa dos protestos no Irã?

Teerã, 1 Jan 2018 (AFP) - Apesar das palavras de ordem dos manifestantes contra o governo, os especialistas consideram que o atual movimento de protesto no Irã é fruto do mesmo sentimento de raiva que fez tremer outros países atingidos pela austeridade.

"O que faz os iranianos saírem às ruas com mais frequência são os problemas econômicos cotidianos, a frustração com a falta de emprego, a incerteza sobre o futuro de seus filhos", explica à AFP o fundador do Europe-Iran Business Forum, Esfandyar Batmanghelidj.

Segundo o especialista, os confrontos dos últimos dias surgiram pelas medidas de austeridade adotadas pelo presidente Hassan Rouhani desde sua chegada ao poder em 2013, como as reduções nos orçamentos sociais, ou a alta dos preços dos combustíveis há semanas.

"Para Rouhani, é difícil fazer aprovar os orçamentos de austeridade, mas se trata de medidas necessárias frente à inflação e aos problemas de divisas e para tentar melhorar o atrativo do Irã para os investidores", afirmou Batmanghelidj.

"Após um período de sanções muito difíceis, porém, a austeridade pode minar a paciência das pessoas", completou.

"Existem provas, especialmente em Mashhad, de que as manifestações foram organizadas para marcar pontos políticos", declarou o especialista Tasnim Amir Mohebbian, de Teerã.

"Não me surpreendem essas manifestações. Nos dois últimos anos, vimos um desfile nas ruas contra os bancos e as sociedades de crédito", lembra o cientista político Mokhtaba Musavi, que também vive em Teerã.

"Muitos desses manifestantes pertencem à classe média que perdeu muitas de suas posses", disse à AFP.

Alguns especialistas não acreditam que as manifestações possam ser uma séria ameaça para o governo e consideram que não parece que estejam obedecendo a uma organização clara.

Os protestos políticos podem ser vistos, na verdade, como uma sorte para o governo.

"O sistema prefere as manifestações políticas às econômicas, porque são mais fáceis de controlar", apontou Musavi.

Hoje, após mais uma noite de protestos violentos em várias cidades do país, que deixaram dez mortos, o presidente Rouhani disse que o povo iraniano responderá "aos agitadores e aos que descumprirem a lei".

"O povo responderá aos agitadores e aos que descumprirem a lei", que são uma "pequena minoria", declarou Rouhani, segundo a página institucional on-line da Presidência iraniana.

Ao mesmo tempo, Rouhani reconheceu que o Irã deve abrir "um espaço" para que a população possa expressar suas "preocupações cotidianas", mas condenou os atos de violência e a destruição de propriedades públicas.

"A crítica não é o mesmo que a violência e que destruir os bens públicos", disse ele em uma reunião do Executivo, acrescentando que "os órgãos do governo devem dar espaço para a crítica legal e para os protestos", segundo a rede de televisão pública.

"Isso deveria ficar claro para todo o mundo: somos uma nação livre e, em virtude da Constituição, [...] o povo é absolutamente livre para expressar suas críticas e inclusive para protestar", afirmou.

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