Paquistão reage com irritação a tuíte 'incompreensível' de Trump

Islamabad, 2 Jan 2018 (AFP) - O Paquistão reagiu com irritação nesta terça-feira (2) à ameaça "completamente incompreensível" lançada no Twitter pelo presidente americano, Donald Trump, de suprimir a ajuda ao país, ao qual acusou de não fazer o suficiente na luta contra o terrorismo.

As "recentes declarações (...) da liderança americana são completamente incompreensíveis porque contradizem os fatos de forma manifesta", destacou o gabinete do primeiro-ministro em um comunicado, ao final de uma reunião do Conselho de Segurança Nacional.

Os comentários de Trump "negam décadas de sacrifícios feitos pela nação paquistanesa" na luta contra o terrorismo, acrescentou, citando "a perda de dezenas de milhares de vidas de civis e de forças de segurança".

Isto não pode "se banalizar com tão pouca compaixão, falando só de valor monetário", ressaltou o comunicado, destacando por outro lado que o Paquistão "lutou a guerra contra o terrorismo em primeiro lugar com seus próprios fundos e com um custo muito elevado para sua economia".

Esta foi a primeira reação formal do Paquistão desde que Trump arremeteu na segunda-feira contra Islamabad, tornando-se o alvo de seu primeiro tuíte de 2018.

"Os Estados Unidos outorgaram tolamente ao Paquistão mais de 33 bilhões de dólares em ajuda durante os últimos 15 anos, e só nos devolveram mentiras e enganos, pensando em nossos líderes como se fossem bobos", escreveu o presidente americano.

"Dão refúgio aos terroristas que estamos procurando no Afeganistão, com pouca ajuda. Nunca mais!", acrescentou Trump.

O Paquistão, que afirma ter perdido mais de 62.000 vidas e 123 bilhões de dólares desde 2003 na guerra contra o extremismo, qualificou de inventada a cifra de US$ 33 bilhões em ajuda em seu comunicado.

Este chegou um dia depois de o embaixador americano em Islamabad, David Hale, ter sido convocado pelo ministério paquistanês das Relações Exteriores. Nem os Estados Unidos, nem o Paquistão fizeram comentários sobre o conteúdo desta reunião, muito incomum.

- Difícil relação bilateral -O Paquistão, aliado dos Estados Unidos desde a Guerra Fria, sempre negou as críticas americanas e acusa Washington de ignorar os milhares de paquistaneses mortos na luta contra o terror.

Após os atentados de 11 de setembro de 2001, os dois países acordaram colaborar para desmantelar os grupos islamitas na região. Mas os Estados Unidos, assim como o Afeganistão, acusam os paquistaneses de apoiar os talibãs, ativos também em território afegão.

Mike Mullen, ex-chefe de estado-maior do exército nos Estados Unidos, chegou a qualificar a rede Haqqani - responsável por vários ataques contra as forças americanas no Afeganistão e que durante muito tempo encontrou abrigo no Paquistão - de "braço" dos serviços secretos paquistaneses.

O Paquistão lançou em 2014 operações em zonas tribais, na fronteira com o Afeganistão, e assegura ter erradicado os redutos dos grupos islamitas.

Mas em agosto, o governo Trump indicou no Congresso que se estava cogitando parar de pagar os 255 milhões de dólares de ajuda ao Paquistão, cujo pagamento já tinha sido adiado.

As relações entre os Estados Unidos e o Paquistão já eram complexas durante a Presidência de Barack Obama e pioraram com Trump.

Em agosto, o presidente americano acusou o Paquistão de fazer um jogo duplo no Afeganistão e de acolher em seu território "agentes do caos". Poucos meses depois, ameaçou deixar de ajudar o país. "A cada ano, pagamos quantias enormes ao Paquistão, têm que nos ajudar", afirmou.

Segundo o analista Michael Kugelman, especialista em Paquistão, "em algum momento será inevitável cortar a ajuda", escreveu no Twitter.

"Trump costuma fazer declarações muito duras que só viciam a atmosfera e violam as sutilezas diplomáticas. Mas não há nenhuma possibilidade de reação dura", como cortar todas as ajudas, assegurou, por sua vez, o especialista paquistanês, Hassan Askari.

Os Estados Unidos "não tomarão nenhuma medida extrema porque obrigaria o Paquistão a proibir a seus soldados e às suas provisões passar por [os postos fronteiriços de] Torkham e Chaman", acrescentou.

O exército americano precisa de ajuda logística do Paquistão para ter acesso às suas tropas estacionadas no Afeganistão.

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