Papa deseja que eleições permitam à Venezuela sair da crise

Cidade do Vaticano, 8 Jan 2018 (AFP) - O papa Francisco manifestou sua preocupação pela crise na Venezuela e defendeu que as eleições sejam "o início da solução" à crise neste país, em sua tradicional saudação ao corpo diplomático nesta segunda-feira (8).

Em seu longo discurso ante os 183 embaixadores e representantes creditados na Santa Sé, o papa argentino analisou vários focos de conflito que ameaçam o mundo e se referiu em particular à situação na Venezuela.

"Penso especialmente na querida Venezuela, que atravessa uma crise política e humanitária cada vez mais dramática e sem precedentes", assinalou.

"A Santa Sé, enquanto pede que respondam sem demora às necessidades básicas da população, deseja que sejam criadas condições para que as eleições previstas durante o ano em curso consigam dar início à solução dos conflitos existentes, e possam olhar para o futuro com serenidade renovada", destacou.

Francisco tem multiplicado os seus apelos a favor do diálogo na Venezuela nos últimos dias, inclusive no Natal, e vê com bons olhos a terceira rodada de conversas que será realizada em 11 e 12 de janeiro em Santo Domingo, indicaram fontes religiosas.

O chefe da igreja católica da Venezuela, monsenhor Diego Padrón, também advogou no dia anterior por um "acordo confiável, ponderado e realizável" nas negociações entre o governo de Nicolás Maduro e a oposição, que se apresenta rachada.

Francisco, que empreende este mês uma viagem ao Chile e ao Peru, recordou sua histórica visita à Colômbia em setembro.

"Por último, na Colômbia desejei bendizer os esforços e a valentia desse povo amado, marcado por um vivo anseio de paz após mais de meio século de conflito interno", afirmou.

- A monstruosa lógica da guerra -Em seu discurso pronunciado na imponente Sala Régia do Vaticano, o pontífice pediu respeito aos "direitos humanos" no mundo e condenou como "monstruosa" a lógica da guerra.

"Um fato qualquer imprevisível pode inesperadamente provocar o incêndio bélico", alertou.

Francisco reiterou a posição da Santa Sé de que toda diferença deve ser "resolvida não com armas e sim por meio de negociações".

"Na era atômica, a guerra não pode ser usada como instrumento de justiça", assegurou ao analisar a situação mundial.

O papa também fez um apelo pelos refugiados e pediu à comunidade internacional para que trabalhe a fim de que possam retornar aos seus países.

O chefe da Igreja Católica pediu aos europeus que cultivem a cultura da acolhida, que tentem descobrir sua bagagem cultural e animou os países a "lutar contra a pobreza, tanto material como espiritual, e a edificar a paz e construir pontes".

Em seu discurso aos embaixadores, o papa pediu que não esqueçam do continente africano, e advertiu que "não basta se indignar com tanta violência".

- Coreia do Norte e Jerusalém -Entre os focos de conflito citados pelo pontífice figura o da península coreana, onde o mundo, segundo ele, deve apoiar "todos os esforços de diálogo a fim de encontrar novas vias para que sejam superadas as atuais confrontações".

Um impulso indireto ao excepcional encontro previsto para terça-feira entre Coreia do Sul e Coreia do Norte após dois anos de silêncio.

Francisco também recordou as resoluções das Nações Unidas para que se respeite o status de Jerusalém e alertou que "70 anos de enfrentamentos obrigam que se encontre uma solução política que permita a presença na região de dois Estados independentes dentro das fronteiras internacionalmente reconhecidas".

- O direito ao trabalho e o cuidado da Terra -O papa latino-americano, muito sensível à questão social, também falou do direito ao trabalho, "um bem escasso em muitos países", e criticou os modelos econômicos orientados "para a mera ganância e exploração dos mais fracos, como são as crianças", lamentou.

Condenou os "ritmos de trabalho estressantes", "a redução progressiva dos dias e tempos de descanso", o "flagelo do trabalho infantil", da violência doméstica e a queda da natalidade, entre tantos males da era moderna.

Chamou "com urgência" a enfrentar de forma coletiva o cuidado da Terra, frear o aquecimento global e reduzir as emissões de gases nocivos.

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