Herança racista do presidente Wilson assombra Direitos Humanos na ONU

Genebra, 9 Jan 2018 (AFP) - Como condenar o racismo no mundo em nome da comunidade internacional a partir da sede de uma organização que tem o nome de um racista?

O destino fez com que o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos se instalasse em um edifício de 225 salas, inaugurado em 1875, em Genebra, à beira do lago Léman, que em 1924 passou a se chamar Palácio Wilson, em memória do ex-presidente americano Woodrow Wilson.

Um século depois deste presidente negociar o acordo de paz que pôs fim à Primeira Guerra Mundial e contribuiu para a criação da Sociedade das Nações (SDN), em Genebra, precursora da ONU, suas posições sobre direitos humanos, especialmente sobre as raças, são reveladas.

O processo de revisão começou na Universidade de Princeton - da que Wilson foi um dos presidentes - mas ainda não alcançou a cidade de Genebra, muitas vezes considerada a capital dos direitos humanos.

Alguns pensam, no entanto, que seria necessário examinar o vínculo entre seu nome e o escritório dos Direitos Humanos, tendo em conta suas posições em relação aos negros americanos.

"Wilson era um racista. Acredito que não há nenhuma dúvida disso", afirma à AFP Margaret MacMillan, historiadora da Universidade de Oxford.

"O fato de que (o Palácio Wilson) acolha o escritório dos Direitos Humanos (...) é, do meu ponto de vista, lamentável. É um desse acidentes da História", assegura.

- 'Um homem da sua época' -Em Princeton, um grupo de estudantes negros questionou em 2015 o fato de que o nome do ex-presidente fosse atribuído à prestigiosa escola de negócios internacionais da universidade.

Princeton criou um comitê para estudar as opiniões de historiadores, incluindo provas de que Woodrow Wilson era de fato um reacionário em relação à comunidade negra, adotando políticas de segregação na administração federal e rodeando-se apenas de supremacistas brancos.

"Não podemos simplesmente ignorar a política racista de Wilson explicando que ele era 'um homem da sua época'", escreve N.D.B Connolly, historiador da Universidade Johns Hopkins, em uma carta ao comitê.

Paula J. Giddings, historiadora da Universidade Smith College, indica por sua vez que, devido às posições do ex-presidente, a segregação racial se "inscreveu no coração da nação".

O comitê decidiu finalmente deixar o nome de Wilson em suas instituições, mas reivindica "a transparência sobre os erros e os defeitos" do ex-presidente.

- 'Múltiplas facetas' -O nome de Wilson é celebrado em todo o mundo, como por exemplo em Paris, onde uma avenida leva seu nome. Em Genebra, justo ao lado do Palácio Wilson se encontra o luxuoso Hotel Presidente Wilson.

Embora reconheça a grande contribuição do ex-presidente para a criação da SDN, Margaret MacMillan acredita que teria sido mais apropriado destinar o Palácio Wilson à Conferência da ONU sobre o Desarmamento.

Em uma entrevista à AFP no mês passado, o Alto Comissário para os Direitos Humanos, Zeid Ra'ad Al Hussein, assegurou que sempre tinha sido "favorável a uma melhor compreensão da história".

"O presidente Wilson é claramente um homem de múltiplas facetas", declarou Zeid. "Sem ele, é provável que não houvesse nem a Sociedade das Nações, nem a ONU".

"As posições sobre o racismo eram condenáveis certamente no contexto atual" e no "daquela época também", reconheceu.

Zeid recordou que o Palácio Wilson foi chamado assim pelas autoridades suíças e que o edifício continua pertencendo ao Cantão de Genebra. Por isso, uma mudança no nome não dependeria da ONU.

Mas o Alto Comissariado poderia sugerir uma solução de compromisso, como a que foi adotada pela Universidade de Princeton, onde os edifícios ou instituições históricas conservam seu nome mas informam ao público, através de uma placa, por exemplo, sobre os preconceitos de Woodrow Wilson.

Para Kenneth Roth, representante da associação Human Rights Watch, é importante que haja transparência sobre os erros do ex-dirigente.

"Acredito que o meio mais eficaz para tratar esta questão é ser claro com as zonas obscuras da história de Wilson, (...) mas sem negar o fato de que ele teve um papel importante na Sociedade das Nações", indica.

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