Papa ratificará compromisso com indígenas em nova visita à América Latina

Santiago, 10 Jan 2018 (AFP) - Em sua nova visita à América Latina, o papa Francisco ratificará seu compromisso com os povos indígenas, ao visitar a região de La Araucanía, no sul do Chile, centro do conflito com os indígenas mapuches, e a Amazônia peruana, dessangrada pela superexploração de minério.

Depois de dar sua bênção a indígenas de México, Equador, Bolívia, Paraguai e Colômbia, e reafirmar o pedido de perdão da Igreja aos povos originários das Américas, Francisco, que visitará o Chile (15 a 18 de janeiro) e o Peru (18 a 21 de janeiro), irá a duas regiões onde populações indígenas denunciam abusos e exclusão.

No Chile, o papa visitará no próximo dia 17 Temuco, capital da região de La Araucanía, 'zona quente' onde os indígenas mapuches reivindicam terras que consideram suas por direitos ancestrais e que hoje estão nas mãos de empresas florestais.

Depois de resistir ferrenhamente aos colonizadores espanhóis, desde meados do século XIX, os mapuches ficaram restritos a viver em cerca de 5% de suas antigas terras. Sem espaço para plantar ou criar animais, a maioria precisou emigrar para grandes cidades e deixar de lado suas tradições ancestrais.

Há duas décadas, grupos radicais começaram a reivindicar territórios "usurpados" com a queima de maquinário florestal e confrontos violentos com a Polícia, que deixaram dezenas de indígenas mortos.

Sem canais de comunicação e sob o olhar crítico da maior parte dos chilenos, os mapuches esperam que a visita papal os ajude a "visibilizar" sua causa, embora não tenham grandes esperanças de mudanças.

"Grandes coisas não se esperam nem do papa, nem deste, nem daquele. Aqui as transformações concretas vamos fazer nós com o nosso esforço", disse à AFP Ramón Llanquileo, um dos líderes da radical Coordenadora Arauco Malleco (CAM), à qual se atribui a maioria dos ataques incendiários na região.

Os organizadores da visita do papa esperam que a mesma "ajude no encontro entre os chilenos naquela região e o resto do país", afirmou seu coordenador nacional, Fernando Ramos.

- Visita à Amazônia -Depois de Temuco, Francisco voltará a Santiago e em seguida irá para Iquique (norte), onde conhecerá a realidade da migração para, então, iniciar sua viagem ao Peru, onde visitará a cidade de Puerto Maldonado, na região de Madre de Dios, na Amazônia peruana, fortemente castigada pela mineração ilegal de ouro.

"A presença do papa em Madre de Dios se deve à contaminação e à depredação de nossos territórios, além da falta de segurança jurídica para os territórios das comunidades indígenas", disse à AFP Julio Ricardo Cusuriche, presidente da Federação Nativa do Río de Madre de Dios.

Berço do império inca, o de maior desenvolvimento da América pré-colombiana, o Peru tem nos indígenas amazônicos uma de suas populações menos desenvolvidas.

Umas 350.000 pessoas pertencem a algum dos 50 grupos étnicos amazônicos, alguns dos quais vivem como há 5.000 anos e sem contato com outras civilizações.

Algumas comunidades foram escravizadas por todo tipo de traficante de riquezas da floresta, como a borracha ou a madeira, e nos últimos anos, sentiu com força os efeitos das mudanças climáticas.

"A situação dos povos indígenas é preocupante e, mais ainda, é alarmante a dos povos indígenas em isolamento voluntário pela depredação de suas áreas", acrescentou Cusuriche.

Francisco se reunirá com indígenas amazônicos no Coliseu Regional Madre de Dios, onde se espera a presença de 3.500 nativos. Indígenas bolivianos e brasileiros deverão cruzar a fronteira para ver o papa.

Durante seu pontificado, Francisco já exortou respeitar, valorizar e consultar os povos indígenas. Em 2016, durante visita ao México, Francisco pediu perdão aos indígenas pelos maus tratos e a desigualdade a que são submetidos e autorizou o uso de línguas autóctones nos rituais católicos.

Um ano antes, durante visita à Bolívia, onde a maioria da população é indígena, pediu "humildemente perdão, não só pelas ofensas da própria Igreja, mas pelos crimes contra os povos originários durante a chamada conquista da América".

Em sua última viagem à região, em 2017, quando visitou a Colômbia, os indígenas colombianos, grandes vítimas da Conquista, também tiveram seu momento de sintonia com o papa.

Tanto Bento XVI, em 2007, como João Paulo II, em 1992, já tinham feito alusão às injustiças cometidas pelos colonizadores contra a população nativa.

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