Nova perícia sobre acidente da Air France acusa tripulação

Mais de oito anos após o acidente com o avião da Air France, que caiu enquanto voava do Rio de Janeiro para Paris, uma nova perícia judiciária acusa a tripulação da aeronave de ser culpada pelo acidente. O resultado gerou indignação nas famílias das vítimas, que temem ver a fabricante Airbus escapar das ações. Esta é a terceira perícia feita para analisar o caso. 

O acidente com o voo AF447, em 1º de junho de 2009, matou os 228 passageiros e tripulantes a bordo. A Air France e a fabricante europeia do avião, a Airbus, foram acusadas em 2011 de "homicídio culposo" no contexto da investigação aberta em Paris. Em 2015, o relatório foi anulado, após ser denunciado pelas famílias da vítima e pela AirFrance, por beneficiar a fabricante do avião. 

Em 20 de dezembro de 2017, novos especialistas enviaram um relatório provisório aos juízes de Paris - que analisam o caso. Em suas conclusões, às quais a AFP teve acesso, os especialistas estabelecem como "causa direta" do acidente a "perda de controle" da aeronave, que "resultou em ações inadequadas em pilotagem manual" da tripulação.

"A pilotagem manual foi imposta pelo desligamento do piloto automático, consecutivo ao congelamento das sondas pitot", diz a perícia. De acordo com o relatório, esse congelamento é o ponto de partida da catástrofe e um elemento-chave do inquérito, pois teria levado a uma incoerência nas medições de velocidade do Airbus A330.

Nas "causas indiretas", os especialistas listam, sobretudo, uma "insuficiência de treinamento da tripulação na pilotagem de altitude elevada", falta de formação e ausência inicial do comandante de bordo. Nas conclusões, a única acusação à Airbus é uma "ambiguidade na ordenação do procedimento Stall" (alarme de queda) na documentação tanto da fabricante, quanto da Air France.

A primeira perícia, feita em 2012, já tinha apontado erros da tripulação, problemas técnicos e um déficit de informação dos pilotos no caso de congelamento das sondas.

"Nós nos sentimos enojados de indignação", reagiu Danièle  Lamy, presidente da associação das vítimas, chamada Ajuda Mútua e Solidariedade AF447, ouvida pela AFP. "O problema das sondas é deixado de lado, temos a impressão de que a Airbus é intocável", irritou-se a representante de cerca de 360 familiares e amigos das vítimas francesas, brasileiras e alemãs. "Sempre é culpa dos pilotos, que não estão aqui para se defender", acrescentou.

Em nota, a Air France destacou que a nova perícia "foi conduzida de forma unilateral e não contraditória, tendo nunca sido associada ao trabalho dos especialistas encarregados". A empresa informou ainda que não pode "aderir às conclusões, que levam particularmente à acusação severa dos membros da tripulação do voo".

Ainda no comunicado, a companhia destacou que "a segurança de voo é e sempre foi a sua principal prioridade e que a formação dos pilotos sempre foi realizada de forma rigorosa" e disse que sempre defenderá "a memória da tripulação da Air France, que foram vítimas deste acidente trágico". A empresa informou que analisará o relatório e fará as observações necessárias aos examinadores.

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