Chamado de unidade do papa Francisco em terra mapuche toca fiéis

Temuco, Chile, 17 Jan 2018 (AFP) - "Francisco, amigo, o sul do Chile está contigo!". Depois de suportar uma longa vigília, milhares de peregrinos celebraram a visita do papa a Temuco, confiantes de que sua mensagem de unidade ressoe em uma zona de tensão pela violência.

Antecedido por vários atentados a pequenos templos religiosos, Francisco presidiu uma missa em massa no campo de Maquehue, que dedicou às vítimas da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990) e criticou o uso da violência na luta para reivindicar os direitos indígenas.

Mas entre os fiéis, seu chamado à unidade - reconhecendo as diferenças - foi o que tocou mais fundo.

"Me parece muito importante a reflexão que o papa fez hoje, sobretudo ter chamado à paz e ao diálogo, o que é muito importante", disse à AFP Carla Vargas ao fim da missa que durou cerca de duas horas, quando o sol forte já dava lugar a uma noite fria no sul do Chile.

"É uma tremenda oportunidade de continuar conversando. O conflito mapuche é um conflito político, social, racial, não apenas policial, como trataram nos últimos anos no Chile", acrescenta esta mulher, que viajou várias horas junto com sua família para poder ver Francisco.

- Saudação indígena -"Mari, mari, küme tünngun ta niemün" (Bom dia, que a paz esteja com vocês"), disse Francisco ao iniciar a homilia usando o mapudungun, o idioma dos mapuche, a etnia mais importante do Chile, que denuncia a discriminação e os abusos, e reclama a restituição de territórios ancestrais que hoje estão em mãos privadas.

Os indígenas se fizeram visíveis no tablado da cerimônia, onde um grupo realizou uma rogativa ao uso de suas tradições ancestrais. Mas não foram muitos entre as cerca de 150 mil pessoas que foram a Maquehue, a metade da capacidade projetada pela organização.

A mensagem do papa foi "muito potente. É um chamado que muitas vezes não se cumpre, mas esperamos em Deus que desta vez possamos tomar consciência, porque queremos viver em paz, tranquilos", disse o "lonko", o líder indígena Carlos Pehuenche à AFP.

"Os mapuches não estão em conflito com ninguém. O que está em dívida é o Estado com os povos originários do Chile", destacou a mapuche Isolde Reuque, vestida com as roupas típicas de sua cultura, como poucos nesta cerimônia.

Em Araucanía está a maior parte das comunidades mapuche, a maior etnia chilena, que antes da chegada dos colonizadores espanhóis ao Chile, em 1541, ocupavam as terras desde o rio Biobío até cerca de 500 quilômetros mais ao sul.

Mas após o sucessivos processos, foram reduzidos a viver em cerca de 5% de seu antigo domínio, confinados em pequenas comunidades com níveis de pobreza superiores ao do resto do país.

- Longa vigília -As portas do campo de Maquehue abriram perto de meia-noite. Lentamente e depois de caminhar um trajeto de cerca de três quilômetros, os peregrinos foram entrando.

Envolvidos em cobertas ou sacos de dormir, com gorros e casacos para suportar o frio, os peregrinos aguardaram por horas a presença do papa Francisco, o segundo pontífice que visita a cidade, depois de João Paulo II, em 1987.

"Acredito que valha a pena (o sacrifício), porque a mensagem que o papa Francisco traz é necessária há muito tempo em nosso país. Se passaram 30 anos desde a última visita (de um papa) e acho que isso irá encher a nós, chilenos, de paz, esperança e fé", disse à AFP Jessica Pinto, que viajou mais de três horas para poder ver o pontífice.

Após a missa, que acabou sem incidentes, Francisco se reuniu com um grupo de representantes do povo mapuche, vítimas da "violência rural", um colono e um migrante haitiano em uma reunião privada, antes de retornar a Santiago para prosseguir com sua apertada agenda.

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