Navalni à AFP: Putin quer ser o 'imperador vitalício' da Rússia

Moscou, 17 Jan 2018 (AFP) - O principal opositor ao Kremlin, Alexei Navalni, cuja candidatura às presidenciais de março foi negada, acha que as eleições tentam nomear novamente o presidente Vladimir Putin, que, em sua opinião, quer virar o "imperador vitalício" da Rússia.

A dois meses das eleições nas quais, salvo alguma surpresa, o presidente russo será eleito para um quarto mandato, o jurista de 41 anos, conhecido por suas denúncias sobre a corrupção das elites russas, recebeu a AFP em sua sede de campanha, no sul de Moscou.

"Estas eleições não são eleições, e meu papel consiste agora em explicar que este procedimento, que eles chamam de eleições, acontece apenas para voltar a nomear Putin", assegurou.

No final de dezembro, a Comissão Eleitoral negou a candidatura de Alexei Navalni, alegando uma condenação por desvio de fundos que visa, segundo o opositor, a afastá-lo da política.

O opositor convocou seus partidários a boicotarem a votação e a se manifestarem em toda Rússia no dia 28 de janeiro.

"Putin quer ser o imperador vitalício. Seu aliados, compostos por multimilionários e pessoas que se encontram entre as mais ricas do mundo, também querem o mesmo", afirmou.

"Atualmente, não há eleições de verdade, e exigimos isso. Uma vez que isso aconteça, estaremos preparados para vencer as eleições", enfatizou.

"O poder compreende e, por isso, me impediram de ser candidato", insistiu.

Opositor de tendência nacionalista no início de sua vida pública, e agora apoiado principalmente pelos liberais, Alexei Navalni organizou em março e em junho passados duas grandes manifestações em várias cidades do país, o que resultou em milhares de pessoas detidas.

Ignorado pela imprensa nacional, é muito atuante nas redes sociais, onde compartilha suas investigações sobre a corrupção das elites, em especial uma sobre o primeiro-ministro Dimitri Mdvedev, visitada 25 milhões de vezes no YouTube.

- Putin tem medo -Navalni fez campanha durante meses por toda Rússia, organizando comícios e abrindo vários escritórios eleitorais nas províncias, apesar das dificuldades impostas pelas autoridades. Isso lhe permitiu conquistar uma base fiel de seguidores, em sua maioria muito jovens.

Suas ações valeram a ele três passagens pela prisão em 2017.

"Vladimir Putin tem medo de mim. Tem medo das pessoas que represento", garante, afirmando ter "criado o movimento político mais importante da história recente da Rússia, com mais de 200.000 voluntários".

"Não vamos votar. Tentamos convencer que não é preciso votar e observamos a eleição para impedir que o poder falsifique a taxa de participação", especialmente nas regiões consideradas propícias à fraude, como o Cáucaso, destaca.

A participação representa um ponto-chave da eleição presidencial de 18 de março, já que Putin, que conta com uma popularidade excepcional, parece ter assegurado um quarto mandato. Com isso, poderá se manter no poder até 2024, transformando-se no chefe de Estado com mais presença no poder desde Stalin.

- Estado autoritário -Considerado por muitos russos responsável pela volta à estabilidade depois do caos dos anos 1990, o presidente russo, de 65 anos, conta com 80% das intenções de voto, segundo a última pesquisa do instituto VTSIOM, ligado ao poder.

Está muito à frente do candidato comunista Pavel Grudinin (menos de 8%) e dos candidatos liberais Senai Soca e Gregori Yavlinski (menos de 1%).

O único instituto independente de pesquisas, o Centro Levada, não está autorizado a realizar pesquisas de opinião durante a campanha, depois de ter sido classificado pelas autoridades de "agente estrangeiro".

Para Navalni, a popularidade de Putin "existe somente em um contexto, no qual o poder não deixa que se apresentem certos candidatos e autoriza apenas aqueles que escolheu".

O opositor acusa o presidente russo de ter "transformado a Rússia em um Estado autoritário", de ter "feito da corrupção a base de seu poder " e "utilizar as questões de política externa", como Ucrânia e Síria, para ocultar as dificuldades econômicas do país, onde o nível de vida continua sendo baixo.

Ele assegura que sua luta política não se limita às eleições, mesmo que admita temer por sua segurança e a de sua família.

"Entendo muito bem com que tenho de lidar e sei de que crimes o Kremlin é capaz, o grupo de corruptos a seu serviço e as legiões de assassinos de que dispõem, por exemplo, na Chechênia [...], que podem cometer um assassinato a 200 metros do Kremlin, como foi o caso de Boris Nemtsov", acrescentou, referindo-se ao opositor assassinado em fevereiro de 2015.

ml-gmo/nm/sgf.

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