HRW pede resistência aos populismos

Paris, 18 Jan 2018 (AFP) - A organização Human Rights Watch saudou nesta quinta-feira (18) a resistência em todo mundo aos populismos ao estilo Donald Trump e pediu para que não se baixe a guarda diante da ameaça que representam para as instituições democráticas.

Em seu relatório anual, a organização internacional analisa a situação dos direitos humanos em 90 países, destacando os esforços para combater a demagogia, a demonização das minorias e as mensagens de exclusão.

"O grande problema deste ano é realmente o quanto o mundo mudou", declarou o diretor-executivo da organização internacional, Ken Roth.

Em entrevista à AFP, Roth destacou o "momento de desespero" que representou a chegada de Trump à Casa Branca há um ano, quando "parecia que os populistas autoritários estavam em ascensão e não havia nada que pudéssemos fazer para detê-los".

"O que tem sido encorajador no último ano é a resistência que vimos em muitos países a esse aumento de populismo", afirmou.

Segundo Roth, mesmo nos Estados Unidos, Trump se deparou com uma oposição generalizada, embora nem sempre bem-sucedida, de juízes, ativistas, jornalistas e até mesmo políticos do mesmo partido, que rejeitam suas políticas e suas mensagens de divisão racial.

Na Europa, a França levou os louros para casa, de acordo com HRW, com um líder como Emmanuel Macron, que se opôs à campanha de ódio do partido de extrema-direita Frente Nacional contra muçulmanos e imigrantes. A organização também mencionou o freio que a União Europeia impôs à Polônia e à Hungria por suas tentativas de prejudicar o Estado de direito.

Na América Latina, a HRW destacou, em particular, que o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, tenha sido confrontado com protestos por continuar a "destruir a democracia".

E citou indícios de que o filipino Rodrigo Duterte finalmente encontrou resistência interna à sua brutal repressão antidrogas.

Roth destacou ainda os esforços de muitos pequenos países, como a Islândia, que forçou Duterte a controlar sua "polícia assassina", ou a Holanda, que liderou os apelos pelo fim do bloqueio saudita no Iêmen.

E recordou que, quando a Rússia vetou as propostas para responsabilizar a Síria, foi "Lichtenstein quem liderou os esforços na Assembleia Geral da ONU para nomear um procurador especial".

- 'Uma batalha que vale a pena' -Ainda assim, o panorama é sombrio.

"Alguns dos poderes mais importantes, nos quais tendíamos a confiar para promover os direitos humanos, de fato, desapareceram", disse Roth.

Esta é uma das principais consequências negativas da administração Trump, pronta para atacar Irã, ou Venezuela, mas geralmente ausente na frente internacional.

"Muito preocupado com o Brexit", o Reino Unido não desempenha o papel que já teve um dia.

Para HRW, a "indecisão" dessas potências "deixou um vazio em que atrocidades em massa têm ocorrido, muitas vezes descontroladas, em países como Iêmen, Síria, Mianmar e Sudão do Sul".

O custo foi especialmente alto em Mianmar, onde a retórica dos nacionalistas radicais, comandantes militares e membros do governo civil contribuíram para uma campanha de limpeza étnica contra os muçulmanos rohingyas.

De acordo com HRW, mais de 640 mil membros desta minoria fugiram de "massacres, violência sexual e outros abusos pelas forças de segurança".

Para Roth, o fracasso do mundo em lidar com a líder civil, a prêmio Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, foi um erro.

"Ninguém quer acreditar que ela tem liderado a limpeza étnica contra os rohingyas, mas, na essência, ela a defendeu e se recusou a criticá-la publicamente", frisou.

A conclusão é clara para a HRW: onde não há resistência, os populismos florescem.

"A lição que aprendemos no ano passado é que há uma batalha e é uma batalha que vale a pena lutar", insistiu Roth.

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