EUA e Turquia divergem sobre ofensiva contra curdos em Afrin

Kilis, Turquia, 25 Jan 2018 (AFP) - O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, prometeu nesta quinta-feira que a operação da Turquia contra uma milícia curda no norte da Síria vai continuar, após uma conversa com o mandatário americano Donald Trump não aliviar as tensões com os Estados Unidos.

Com a operação lançada no sábado contra as Unidades de Proteção do Povo (YPG), milícia curda aliada dos Estados Unidos e da Otan, o país ataca uma força respaldada por Washington, o que despertou temores de um confronto militar entre as duas potências.

Depois de uma conversa telefônica na noite de quarta-feira entre os presidentes, Donald Trump "pediu que a Turquia reduza e limite suas ações militares" e que evite "qualquer ação que possa provocar um confronto entre as forças turcas e americanas".

Mas Ancara não parece concordar com esta versão, dizendo que não refletiria sobre o conteúdo da conversa. "O presidente Trump não expressou preocupação (sobre) a violência crescente" em Afrin, mas evocou "a necessidade de limitar a duração da operação turca", de acordo com fontes oficiais turcas.

Esta situação ilustra as diferenças entre os dois países em relação às YPG.

Ligadas ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que trava um conflito de guerrilha contra a Turquia desde 1984, as YPG são consideradas uma organização "terrorista" pela Turquia, que quer expulsá-las de Afrin e eventualmente de todos os territórios que controlam no norte da Síria ao longo da fronteira turca.

Em sua primeira visita às tropas ao sul da região fronteiriça turca de Hatay desde sábado, Erdogan enfatizou nesta quinta-feira que a operação "Ramo de Oliva" "vai continuar até que se alcance resultados".

- Até o leste do Eufrates -Erdogan, citado pela presidência turca, disse que uma vez que a "limpeza de terroristas" termine em Afrin, voltará a entregar a região aos seus "principais residentes".

"A Turquia não está de olho em outro território do país", acrescentou.

"A segunda fase será Manbij", uma região também controlada pelas YPG a leste de Afrin, na qual há presença militar americana, "e, depois disso, o leste do rio Eufrates", indicou Ilnur Cevik, conselheiro do presidente Erdogan.

O secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, disse em uma declaração nesta quinta-feira que a Turquia tem o direito de se defender, mas isso deve ser feito "de forma proporcional e medida".

Mas Washington se apoia nas YPG para lutar contra o grupo Estado Islâmico (EI) e não pretende abandoná-las neste momento em que os extremistas estão sendo derrotados.

Já Ancara conta com o apoio de vários grupos rebeldes sírios, principalmente do movimento islâmico, que acusam as milícias curdas de procurarem dividir a Síria estabelecendo sua própria entidade no norte do país.

A ofensiva desperta preocupações de diversos países. A Alemanha pediu na quinta-feira que a Otan abra debates sobre a operação.

- 'Restabelecer a confiança' -O ministro de Relações Exteriores turco, Mevlut Cavusoglu afirmou, por sua vez, que o americano Rex Tillerson propôs estabelecer uma "faixa de segurança" ao longo da fronteira sírio-turca de 10 km de profundidade, com a possibilidade de expandi-la para 30 km.

"Mas para poder discutir sinceramente com os Estados Unidos um assunto sério, como esta faixa de segurança ou outra coisa, primeiro precisamos restabelecer a confiança", disse Cavusoglu.

A ofensiva turca está em seu sexto dia, ao mesmo tempo em que uma nova rodada de discussões de paz sobre a Síria começou nesta quinta-feira em Viena.

Neste contexto, Berlim pediu à Otan que abra discussões sobre a operação turca. Desde sábado, mais de 90 combatentes das YPG e dos grupos rebeldes pró-turcos foram mortos, bem como 30 civis, a maioria deles em bombardeios turcos, de acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH).

O exército turco lamentou três mortos em suas filas.

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